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sexta-feira, 3 de maio de 2013


Alimentação é muito mais que dieta


Eu sempre fui magra. Minha estrutura física e metabolismo sempre foram proporcionais a um corpo mais esbelto. Os hábitos alimentares familiares também me favoreceram ao longo da vida. Passei a infância comendo muita fruta de quintal e correndo feito um moleque para lá e para cá. Comer não era problema, nem era esse tesão todo. Comia o que precisava. 
Segui assim até a idade adulta. Após os 30 anos, ser esbelta já não é mais tão simples assim. O metabolismo e as atividades mudaram. Continuo magra, mas posso dizer que encorpei. Estou me adaptando bem às mudanças do corpo. Acho que as marcas de expressão no rosto me incomodam um pouquinho mais... 
Aos 33 anos, vim para o Norte de Portugal fazer parte dos meus estudos de "doutoramento", como dizem por aqui. Vim para uma cidade chamada Braga, de porte médio, muito agradável de viver e muito fria! Sim, podem dizer que não estou na Finlândia nem nada! Mas para quem vive no Rio 50 graus, uma rotina de chuva, vento e temperaturas na média de 5 graus, é dureza.
Algumas horas após o choque térmico inicial, com uma sensação corporal de congelamento, eu só pensava em comer e beber vinho. E, não, eu não pensava em frutas  frescas e alimentos mais leves, eu pensava em sopa quente, carnes gordas e frituras. E mais vinho! Meu corpo estava em guerra e demandava recursos para contra-atacar. No desespero do frio e da solidão, "danei" a comer. Naquela altura do auge do inverno, era tudo que eu podia fazer para me defender. E funcionou muito bem. 
Um mês depois, o susto: minha calça jeans mal fechava. Como assim?! Depois de acostumar a vestir camadas de roupas e não ter tempo nem de me olhar no espelho_ eu saia do banho correndo para debaixo das três camadas de roupa costumeiras_ eu perdi a noção do meu próprio corpo. Uma espécie temporária de distúrbio de imagem corporal induzido pelo frio (e pelo vinho?). 
Ao fim do inverno, eu me sentia estranha! Não reconhecia mais o meu corpo. Fiquei tensa e pensei: " Vou dar um jeito". "Baixou" a nutricionista vingadora! Era uma questão de honra_ e de silhueta também! 
Comecei a comer menos na rua. Investi em cozinhar em casa, e dessa forma, não fazia nenhuma fritura ou alimentos muito gordurosos_ nunca tive mesmo o hábito. Durante essa fase de colocar as mãos na massa, percebi que comer na rua era uma forma também de não me sentir tão sozinha. Comer fora, comer frituras e doces foi uma forma orgânica de lidar com o frio e a solidão. Essas práticas me traziam alguma companhia (ou ao menos a presença de pessoas aos meu redor) e uma espécie de conforto maternal, como aquele leite quente cheio de açúcares, nutrientes e lipídios dos quais tanto precisava quando era bebê. 
Depois dessa fase inicial, comecei a andar mais, fazer tudo que havia para fazer na cidade à pé. Andei, andei, andei até ficar em movimento novamente. E a primavera chegou! A colega de "doutoramento" brasileira chegou, as visitas foram se tornado freqüentes, as árvores renasceram, as flores coloriram a cidade... E eu andando.
Quer dizer, agora somos nós andando! E andamos e andamos... Entramos em contato com um grupo de agricultura familiar. A Bete se inscreveu num sistema para receber cabaz (cesta) de alimentos orgânicos. Nós fomos lá buscar como quem vai em busca do tesouro no fim do arco-íris. Tudo se tornou divertido. Comer salada se tornou um prazer, porque o tempo está mais quente, porque é gostoso, porque nos divertimos escolhendo o cardápio do jantar. Provar os cogumelos, as endívias, os aspargos. Tudo é prazeroso. O prazer de comer é compartilhado!
Sem me dar conta, voltei ao meu peso de hábito. Não copiei ou inventei dietas mirabolantes, não comprei produtos, não encomendei as barras de cereal milagrosas de uma atriz famosa. A minha forma de viver mudou! A minha forma de me relacionar com os alimentos mudou. Eu me tornei de novo um ser que interage com pessoas queridas, que sai andando por aí porque isso dá prazer. Que se dedica a preparação do jantar porque é importante e divertido. Numa cidade tranqüila, recuperei a paz de saber que não estou só. Recuperei o prazer de ser o que sou e então, o meu corpo voltou a ser o que é. 
Qualquer mundança que nos diga respeito, não vem de fora. Vem de nós!


4 comentários:

Bete disse...

Pois é simples assim: comer é um ato muito complexo!!!

none disse...

Lembrei de você:

http://www1.folha.uol.com.br/comida/2013/08/1332686-livro-traz-receitas-da-infancia-e-tecnicas-de-vinicius-na-cozinha.shtml
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[]s,

Roberto Takata

Catia Camara disse...

Deliciosa leitura!

Mônica Lobo disse...

Gracias! :)