Pesquisar

terça-feira, 20 de abril de 2010


A lâmina


O que é o dorso de uma faca senão uma linha reta, um apontamento seguro, definido e, porque não, monótono? É um fio sem fio, pois não corta, não expõe as fraquezas dos argumentos seguros, não fere convicções, nem ameaça a integridade das ideias sedimentadas.

Os caminhos retos estabilizam o horizonte como um painel estático a ser contemplado. É como seguir um objetivo sem propriamente interferir no mesmo. Penso nisso quando avalio minhas escolhas. Preferi caminhar sobre o fio da faca, sobre o ventre afiado e ameaçador das novas perspectivas. Não é fácil assumir um olhar desconcertante sobre preceitos tão enraizados sobre a minha forma de compreender meu universo de atuação, até porque sou parte integrante desse universo que, acredito, deveria ser mais transversal que paralelo.

A lâmina que desafia as ideologias rígidas, fatia os conteúdos a serem mastigados, digeridos e transformados em energia de ação. Essa lâmina (que pode até me degolar) representa também a audácia, talvez ingênua, de sair de minha posição confortável de dona do saber da minha área específica e me aventurar a ser novamente estrangeira numa terra onde desconheço o idioma. A lâmina fere meu orgulho mas, como boa adversária, me desafia a superá-la.

Ao contrário do que se possa pensar, a lâmina não intenciona me repartir, nem me reduzir em pedaços pequenos e incapazes, mas pode representar o começo da minha re-estruturação enquanto ser pensante e atuante. Ao me desconstruir, eu posso arquitetar bases com uma engenharia mais estruturada, flexível e desejadamente mais satisfatória e dinâmica de atuação. Afinal, adversária íntegra que é, a lâmina me propõe um honrado e promissor duelo.

Nenhum comentário: