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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Frutos da minha infância


Ontem enquanto chupava uma laranja seleta depois do almoço, lembrei da minha infância. No pomar do quintal da minha vó tinha muita fruta. Eu achava estranha a laranja-da-terra porque só servia pra fazer doce. E vovó fazia, além de doce de abóbora e de mamão verde. Vovó chupava laranja ao longo de todo o dia. E eu seguia o exemplo. Eu pegava o cajá, colocava sal e comia. E as mangas-espada que eu comia uma meia-dúzia de uma vez, puxando a casca inteira... Fazia sacolé de abacate com leite. Chupava cana que meu pai pacientemente cortava pra nós. Provei goiaba branca e vermelha e achei aquela história de dividir fruta com minhoca meio nojenta. Comia muita banana da fruteira da vovó, elas sumiam misteriosamente.

Em Arraial, eu literalmente catava coquinho com as crianças. Andávamos pela restinga, areia muito branca e quente, arbustos verdes, rasteiros, bem separados uns dos outros. Quando algum de nós ouvia chocalho de cobra, todos corriam o mais rápido possível até a areia da praia. Ufa, estávamos a salvo. Havia uma lenda. Quando alguém sentia cheiro de coquinho maduro, ninguém podia dizer isso. Alguém com nariz mais sensível guiava os outros por meio de gestos. Quando finalmente achávamos aquele cacho com coquinhos cor de mamão corríamos pra pegar. Ele é parecido com uma pinha alongada. Os gomos eram açucarados e guardavam um coquinho dentro. Em casa quebrávamos um por um, extraíamos aquelas bolinhas brancas e no fim de tanto esforço, comíamos os coquinhos misturados com açúcar.

Na minha casa, eu comia muita manga no fim do ano. Muita gente da vizinhança ia nos pedir manga e nós distribuíamos com a maior prazer bolsas e bolsas que pareciam não terminar nunca. Era a manga mais gostosa e famosa do bairro. Chamávamos de manga-coração-de-boi. Nunca vou esquecer... Com a acerola que colhia do pé, fazia um suco delicioso. Uma vez plantei sementes de maçã no quintal e a planta cresceu tanto que meu pai teve que arrancar. Triste fim de minha macieira.Sem falar no jamelão na casa da minha amiguinha que manchava nossas roupas quando caiam feito chuva do pé. Eu não achava muito gostoso, mas adorava aquela cor roxa vibrante. Do quintal da vizinha em frente, roubávamos carambola, pois apesar de ser avó de uma das minhas amiguinhas, não nos deixava subir na árvore. A única saída para a questão era a clandestinidade. Na rua ao lado tinha amora: pretinha, docinha e fácil de carregar. A blusa esticada ia cheia pra casa.

No Natal, enquanto vovó não nos deixava comer a ceia, eu atacava as uvas passas, as ameixas suculentas e os pêssegos frescos. Comia tudo. À meia-noite, já estava feliz com tanta fruta que nem ligava pra comer mais nada. Melhor que isso, só a salada de fruta do dia seguinte que eu comia com sorvete. Doces tempos...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Nós, equilibristas.

Todos que me conhecem sabem que sou magra, sempre fui. Mesmo com os excessos alimentares da adolescência, o máximo que ganhei de peso a mais que tenho hoje foram 4 kg. Sem as comilâncias desnecessárias, voltei ao peso que tenho até hoje. E sim, existe uma tendência na minha família ao corpo esbelto. Mas, se eu e meu irmão modificássemos nossos hábitos a ponto de nos tornarmos obesos, poderíamos transmitir esse comportamento a nossos filhos. Então, poderíamos ter filhos obesos, podendo gerar netos obesos também. E assim por diante. Porque estou falando isso? Porque algumas pessoas tem uma tendência (genética) a acumular gordura, mas todos nós podemos acumular gordura através da ingestão de alimentos além do que precisamos. E não falo só da questão do ganho de peso. A obesidade costuma trazer consigo o diabetes, a pressão alta e as doenças cardíacas, formando o conjunto da chamada “síndrome metabólica” responsável por milhões de mortes todos os anos.

Você que está lendo esse texto pode estar pensando: 1- pra quem não tem tendência a engordar é fácil falar de manter o peso e a saúde, 2- como é que a gente pode ter uma alimentação saudável em meio a tantas ofertas de alimentos ditos “não-saudáveis”? São bons questionamentos que merecem uma ótima reflexão. Falando sobre mim, fora minha herança genética, preciso deixar claro que procuro ter uma alimentação equilibrada, assim como o equilibrista se mantém sobre a corda-bamba. Apesar de não gostar de refrigerante e frituras, preciso utilizar da minha consciência a maior parte do tempo para evitar excessos e preservar minha saúde, e por tabela, meu corpo. Não é fácil. É jogar contra as propagandas de fast food, o estresse que pede um docinho, convites pra rodízios...

Um dado simples, porém importante, foi demonstrado em vários estudos com populações nativas isoladas da nossa alimentação ocidental (índios, esquimós etc): a ocorrência quase nula de doenças cardíacas, diabetes, câncer, obesidade, AVC, úlcera, apendicite ou cárie dental. Claro que essas populações tem um estilo de vida diferente das metrópoles, mas a falta de consumo de açúcar, alimentos processados e refinados e gordura em excesso parece ser a diferença alimentar que faz diferença. A oferta de alimentos que temos, antes considerada salvadora, assim como garante nossa sobrevivência, pode estar encurtando nossa expectativa de vida. Avançamos nos tratamentos médicos e retrocedemos na prevenção de doenças. Temos vacinas para muitas doenças, mas adoecemos pela alimentação.

Embora nossa vida seja na cidade, num mundo industrializado, nosso organismo ainda é programado pra guardar calorias até a próxima caça, como era nos tempos das cavernas. Como nossa caça nos aguarda nos corredores do supermercado mais próximo, pouco esforço se faz. Não digo que comer isso ou aquilo está certo ou errado, pois esses conceitos são muito subjetivos. O problema está numa combinação entre o excesso de alguns alimentos que não são necessários a nossa saúde, embora sejam saborosos, e a falta de alimentos que nos fornecem os nutrientes para a função normal do organismo. Equilibristas que precisamos ser, nossas escolhas determinam o quão longe vamos em nossas cordas-bambas de vida. Melhor que seja longe!

sábado, 17 de outubro de 2009


Sou amante do chocolate e do café. E tenho uma história de amor mal resolvida com um sorvete italiano. Pena que ando meio sem apetite...
Momento pára-choque de caminhão.


O amor é como uma viagem de ônibus para a Bahia: antes de chegar no acarajé, tem muita parada pra fazer lanchinho no caminho.

sábado, 10 de outubro de 2009

Vida aleatória: como tudo terminou na barca de 22:30.

A ideia ontem era assistir ao espetáculo de circo que está em cartaz no forte de Copacabana, se São Pedro não tivesse resolvido esvaziar sua piscina olímpica para limpeza e manutenção. Deve ter ficado empolgado com essa história de 2016. A cidade ganhou mesmo de lavada! E foi especialmente inviável sair de Botafogo pra Copacabana, ninguém andava. Nem taxista aceitava a corrida.

Por isso que gosto sempre de ter um plano B e o de ontem foi o Brasil Rural Contemporâneo. “Táááxi! Leva a gente na Marinha da Glória, por favor”. Pegamos o retorno e deixamos todo aquele engarrafamento pra trás, que alívio.

Eu nunca fui nessa feira antes, nem sabia bem o que era. Ao entrar, logo eu, dei de cara com os stands da região sul do Brasil e a operação degustação foi iniciada. Início de evento, todos tão ávidos a mostrar seus produtos e eu e Thaís tão empenhadas para prestar esse serviço tão importante. O caso mais curioso nessa região foi quando paramos para provar café e o cara que estava promovendo o produto confessou que não sabia operar a linda minicafeteira de expresso elétrica que estava no balcão. Perguntei se ele sabia a qual temperatura ela estava ajustada, porque o café estava saindo queimado e amargo demais pra um café de torra média. Eis que ele sacou o manual da máquina debaixo do balcão pra nos mostrar. Saímos de lá morrendo de rir com a promessa dele de que leria o manual pra ajustar a temperatura. Que figuraça o japa! Provamos doce e suco concentrado de uva (tudo orgânico), biscoito amanteigado, geleia de laranja com cenoura, café...

A gente ia caminhado e ouvindo coisas curiosas do tipo:

_“Onde é o RJ?”;

_ “Tá vendo aquele aquele corredor ali? Vira à esquerda, perto de Minas”.

Seguindo pelas demais regiões, degustamos cachaça, doce de leite e queijos de Minas; castanhas, mel, pequi e frutas da região norte e algumas outras coisas que não consigo lembrar agora. Foram muitas... E (claro!) compramos também. Porque corre um boato de que carioca só fica comendo e não leva. Desmentindo essa lenda, eu levei doce de leite e queijo de minas, castanha de caju (fresquinha e suculenta) coberta com chocolate, biscoito amanteigado de coco e canela e mel da Amazônia. Todos devidamente pré-aprovados.

E o que isso tudo tem a ver com a aleatoriedade da vida? Eu explico. Saímos da feira às 22h e meu irmão que vinha de SP tinha avisado que chegaria por volta das 20h. Eu que ia ao circo e chegaria tarde em casa via 996, acabei descendo na Praça XV pra pegar a barca. No caminho, meu irmão ligou perguntando onde eu estava, porque a chuva atrasou tudo e ele estava justamente na Praça XV esperando a barca. Eu cheguei na bilheteria correndo, com o sinal de fechamento da roleta berrando e consegui entrar. Ainda encontrei meu irmão no meio daquela gente toda da barca de 22:30.

Nenhum dos dois eram pra estar naquela barca. Mas a aleatoriedade da vida, pra lá nos levou...

http://portal.mda.gov.br/feira2009/