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quarta-feira, 27 de maio de 2009

A recompensa de comer

Segundo a neurociência, os prazeres estão relacionados ao sistema de recompensa do cérebro. Ele funciona mais ou menos assim: (1) você vivencia a expectativa de comer um pedaço de bolo, por exemplo. Sente o cheirinho dele saindo do forno, lembra do sabor que ele tem (ou imagina), estabelece contato visual, aprecia sua cor dourada, brilhante e experimenta uma ansiedade deliciosa no intervalo de tempo entre ele ser posto no prato e chegar até a sua boca. Imagina aquele vapor quente, o aroma do seu bolo de laranja preferido fazendo você voltar à infância, a maciez dele desmanchando na sua boca misturado ao café quentinho recém-passado... Todos esses prazeres costumam ser chamados de estado de estresse que antecede à recompensa. Um tipo de estresse ao qual costumamos fazer questão de nos submeter. (2) o ato de comer o bolo, aparentemente, constitui o objetivo, mas, na verdade, é um meio para se obter o prazer desejado. Em se tratando de prazer, nosso cérebro costuma nos convencer de que os fins justificam os meios. Apesar de sabermos que um pedaço de bolo é um alimento que por si só representa fonte de nutrientes e faz parte de um conjunto que nos permite viver. (3) a recompensa em si, o prazer de saborear o tal bolo_ relativo a sabor e aroma, a parte química da coisa e todas as memórias afetivas relacionadas a este ato_ chega para nos lembrar que valeu à pena esperar o bolo ficar pronto ou sair para compra-lo ou parar naquela cafeteria para degusta-lo com um amigo. O prazer te convence de que seu investimento trouxe um delicioso retorno e que é muito provável que você repita esse processo todo muitas outras vezes.

Certo. E porque estou falando disso afinal? Eu já respondo. Aliás, devo confessar que estou utilizando achados científicos para defender o meu argumento em relação ao ato de degustar. Segundo as definições tradicionais, degustar significa tomar o gosto de algo ou provar. Eu diria que é uma das etapas mais interessantes dos nossos momentos de comer. O tal bolo de laranja quentinho ou uma banana madura devem ser apreciados em suas qualidades. É muito comum nos preocuparmos com a alimentação das crianças, porque elas devem provar todos os alimentos para saber o que gostam ou não, para terem melhores hábitos alimentares... E nós, adultos? Depois que crescemos, comer deve se tornar um comportamento automático, um compromisso com hora marcada ou uma válvula de escape para os nossos momentos de tensão? Creio que os alimentos devem receber sua devida atenção. Nem que você tenha apenas 5 minutos pra comer seu pedaço de bolo. Procure concentrar-se nele, no sabor, na textura dele quando desmancha na sua boca, porque se você não presta atenção na sua recompensa, como seu cérebro vai saber quando parar? Ou se você está satisfeito? Já reparou que se comer assistindo TV, você devora um pacote inteiro de biscoito sem perceber? É capaz de nem saber responder se alguém te perguntar de que sabor era. Então, será mesmo preciso uma caixa de bombom inteira pra satisfazer seu desejo de comer bombom? Ou o que te impulsiona a comer esses bombons não é exatamente o prazer de saboreá-lo (sentir o sabor!)? Em situações normais, nas quais a pessoa não possui nenhum problema relacionado a distúrbios alimentares (bulimia, transtorno do comer compulsivo, etc), o ato de investir na degustação de uma simples fatia de abacaxi, que seja, gera um prazer suficiente para que, no máximo, se deseje comer mais uma. E mesmo que dê vontade de comer o abacaxi inteiro, você pode escolher entre fazer isso ou não. Se você estivesse comendo o abacaxi a assistindo TV ao mesmo tempo talvez não tivesse essa escolha...


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