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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mercadão: submundo dos alimentos entorpecentes.

Construído entre 1926 e 1932, o Mercado Municipal de SP foi inaugurado 1 ano depois para corresponder às expectativas da população paulistana de ter um mercado à altura daquela gigantesca cidade. Margeando o rio Tamanduateí, por onde vinham os produtos de chácaras e sítios, o Mercadão virou referência de boas compras na época. Hoje ele destaca-se como pólo de gastronomia, depois de ter sido ameaçado até de demolição (que sacrilégio!).
Uma boa opção pra chegar lá é o metrô. Descendo na estação São Bento, saída da ladeira porto geral, desembocamos no tumulto da Rua 25 de março. A quantidade de gente na rua é tão grande que não parece possível o trânsito de carros por ali. Com uma caminhada de 10 minutos descendo a ladeira, já podemos avistar o Mercado ilhado no meio de uma área abandonada do centro antigo da cidade. Há, inclusive, um prédio residencial, vulgo “Treme-treme“, de 27 andares e 624 apartamentos que foi invadido pela população. Olhando de longe mais parece um presídio vertical, com a fachada toda pichada, vidros quebrados e a pintura descascada. Há informações de que ela está ameaçado de demolição pela prefeitura. Fiquei imaginando como aquele quarteirão deve ser assustador à noite...
Quando nos aproximamos do Mercadão, deu pra ter a noção do tamanho do lugar. Era como se estivéssemos visitando uma catedral ou algo parecido, com seus lindos vitrais decorando o alto da parede anterior, onde predominam os tons lilases, e a cúpula no teto dando ao ambiente um ar quase sagrado. Era como respirar a história da cidade lá dentro.
Ao contrário do que se pode imaginar, o mercado é bem organizado. A divisão em setores nos permite pesquisar melhor produtos e preços, além de guardar os aromas de cada classe de alimento. Para começar, avistamos as bancas de frutas. São mosaicos estonteantes com texturas e cores bem variadas. Paul Cézanne* pintaria todos os seus quadros lá se tivesse conhecido o Brasil... As frutas mais comuns nos chamam logo a atenção por sua familiaridade. Quem não identifica bananas, tangerinas ou maçãs neste nosso país tropical? Mas, passado o encantamento inicial, vamos notando exemplares menos conhecidos ou mesmo exóticos como a Kini da Nova Zelândia e a Lichia chinesa. Elas despertam a curiosidade e estão presentes por toda a área “salada de fruta”. O pêssego e a ameixa tem aromas irresistíveis pra mim. Eu fecho os olhos e entro em transe, como se o mundo inteiro fosse perfumado. Repouso em um Oasis aromático particular e doce. E melhor que cheirar, só a sensação de penetrar a polpa da ameixa com uma dentada suave e precisa pra sentir o sumo azedinho-doce inundando a boca. A primeira palavra que me vem em mente é: suculenta! A salivação já começa antes mesmo da mordida, quando meus olhos avistam os contornos macios dessas adoráveis e coloridas criações da natureza.
Se não bastassem as frutas frescas, encontramos também suas versões cristalizadas ou desidratadas. Abacaxi, figo, cascas de limão siciliano e laranja, manga, abóbora, damasco, a clássica banana... Pequenas montanhas deles à venda, para todos os tipos de paladares. O melhor dessa história é que podemos provar o que quisermos. O freguês só leva se gostar. O difícil é não querer levar tudo...
Progredindo nas compras, encontramos os frutos oliaginosos (amêndoas, nozes, macadâmias, castanhas) em suas formas tradicionais, confeitadas, caramelizadas e tudo mais que se puder imaginar. Essa parte funciona como zona de transição para a descoberta dos azeites, embutidos e queijos. Encontrei tipos interessantes e apetitosos de azeite em prateleiras e pendurados nos tetos das barracas. Parece estar chovendo óleo de oliva! Ou que são frutos que pendem de árvores... Aqueles adicionados de condimento, como alecrim ou limão siciliano eram os mais caros e, provavelmente, os mais saborosos.
Mesmo para quem prefere as frutas e os doces, não há como ignorar o aroma intoxicante das mortadelas, salames e do bacalhau! São oferecidas fatias e pedaços para se provar, além de patês, sanduíches, bolinhos, pastéis feitos na hora! Aliás, paulistano adora um pastel! Impressionante! As azeitonas reinam no setor de conservas, sendo vendidas e degustadas por toda parte. São verdes, roxas, pretas em tons degradé de fazer qualquer apreciador das mesmas desejá-las espetadas com palitinhos, numa mesa de bar, acompanhando uma bebida bem gelada. Há quem eu conheça que passaria o dia à base de azeitona...
Após o almoço no terraço que tem vista pra todo o interior do mercado, nos dirigimos à saída por um caminho diferente. Descobri barracas de pescado fresco próximas às de comida japonesa. É incrível, mas até essa parte do Mercado cheirava bem. Dava vontade de comer os peixes crus mesmo! Mais próximo à porta, percorremos um corredor de condimentos inebriante! Parei para apreciar alguns deles que me pareceram mais frescos: manjericão, orégano, canela, alecrim... Outro transe sensorial antes de ir embora. Estive em alfa por alguns minutos até que alguém me puxou pelo braço como criança distraída num parque de diversões.
No fim das contas, confesso que sucumbi ao submundo dos alimentos entorpecentes. Sem culpa, medo ou arrependimento. Faria tudo de novo. Ou melhor, farei!

*Paul Cézanne: pintor francês pós-impressionista que pintou muitos quadros de natureza morta utilizando frutas.