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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Chama o Fernando!

_ Eu não vou sair daqui! Foi a primeira coisa que eu ouvi ao entrar no banheiro apertado do restaurante.
Estávamos de saída e resolvi, bem... aliviar a tensão da bexiga por precaução. Nunca se sabe. Trânsito, atrasos, filas no banheiro do shopping. Eu só não imaginava que, de uma das cabines do dito recinto, eu avistaria uma cabeça (a moça era alta, ou a porta baixa, sei lá!) ostentando uma cara de aflição misturada com teimosia infantil, dizendo isso. Me assustei, lógico! Mas, em seguida, perguntei se podia ajudar. A moça logo repetiu seu irritante mantra:
_ Eu não vou sair daqui! Não vou! Como essa parte eu já havia entendido_ talvez ela ainda precisasse se convencer_ mudei a pergunta e disse:
_ Quer que eu chame alguém? Funcionou melhor. Ela saiu do transe e respondeu:
_ Chama o Fernando! Chama o meu marido! (assim, meio gritando mesmo) Ele tá me esperando segurando uma bolsa preta (nessa parte, ela já estava mais calma).
Sem pensar duas vezes, sai em busca do Fernando, ou melhor, de um cara que se parecesse com algum herói capaz tirar aquela criatura do banheiro. Não sei porque fiz isso. Poderia muito bem ter chamado o gerente ou algum funcionário do restaurante. Então, poderia ir embora com meus amigos. Mas eu precisava conhecer o Fernando e saber porque aquela mulher adulta, dando piti de criança estava trancada lá choramingando e gritando ao mesmo tempo. Eu queria participar do resgate. Confesso que ainda queria também usar o sanitário, mas isso era um mero detalhe diante da tragédia anunciada.
Eu olhei pra moça com firmeza de decisão e sai procurando o destemido Fernando com a tal da bolsa preta. Vasculhei as mesas da parte de dentro e depois parti pra varanda. De repente, encontro um sujeito daqueles com cara de protético, com uma bolsa preta, de estampa branca na mão. Me aproximei e indaguei:
_ Você é o Fernando? E o cara sem entender nada, respondeu:
_ Soo-u, por que? Eu esclareci, então:
_ A sua mulher está com um problema no banheiro e não quer sair de jeito nenhum. Pediu pra te chamar (fiz cara de quem tá só tentando ajudar uma necessitada, sabe, solidária).
Acompanhei o destemido Fernando até o banheiro, do qual ele se aproximou meio ressabiado. Afinal, era o território feminino e ele sabia que não deveria estar ali.
Sem muita criatividade, a mulher, ao vê-lo, reclamou:
_ Eu não vou sair daqui! E acrescentou:
_ Esse banheiro imundo, apertado!!! Não dava pra sentar. Fui fazer em pé e molhei a bermuda! Eu não vou sair daqui com a bermuda molhada!
Neste momento, eu juro que não ri em consideração ao Fernando. Coitado, vivenciar aquela situação e ainda ser motivo de riso. Era demais pra uma pessoa só.
Eu me contive e achei melhor passar a bola pra ele. Ignorei por alguns segundos a situação e abri a cabine ao lado para meu uso próprio e desisti. A minha vizinha de cabine tinha razão numa coisa: o banheiro estava um nojo. Senti que não me restaram muitas opções. Eu precisava partir.
Felizmente, antes da minha desistência, uma senhora muito firme em seus argumentos conseguiu fazer o que eu fracassaria ao tentar: fazer a moça histérica sair de seu esconderijo sem rir da situação. Enquanto isso, eu permanecia muda. Ou era isso, ou eram gargalhadas inconvenientes, embora justificadas. Seria muita falta de humanidade da minha parte.
O pior foi a reação do Fernando. Tudo bem que ele tá mais pra Paul Giamatti em “Anti-Herói Americano”, com aquela cara de chama-outro-pra-resolver-isso. Mas, por um momento, eu na minha santa ingenuidade, achei que ele saberia o que fazer, pelo menos. Nããããão! Naquele pequeno espaço entre as cabines e a porta e eu e a senhora decidida, estava o casal discutindo inutilmente:
_ Eu não vou sair assim! (gritou a mulher).
_ Quer que eu vá em casa buscar outra roupa? (respondeu Fernando)
_ Não sei! Eu não vou sair assim! (ela em transe psicótico). E o marido moribundo, perguntava:
_ Quer que eu vá em casa buscar outra roupa?
Quando eu vi que o diálogo entre eles se resumiria a isso, esbocei um sorriso amarelo e sai de fininho. Eu já estava a ponto de gritar com os dois:
_ Ou você sai logo e pára com essa frescura (com algum requinte de crueldade pra ela) ou você vai buscar logo a droga da roupa (dando esporro nele)!
No fim das contas, ela só estava com a parte de trás da bermuda (amarela) molhada, na altura da coxa direita. Ninguém ia perceber nada. Ou ela acha que, num restaurante italiano onde estão todos degustando pratos deliciosos, alguém ficaria reparando na bermuda dela... Ah, é muita pretensão!

2 comentários:

alexandre soma disse...

Putz! Essa foi sensacional!!!!

Jeff disse...

Eu pensando de muitas possibilidades mas se mijar e ainda por cima em um restaurante com banheiro sujo.. sinceramente, não voltaria mas lá não! Imagina a cozinha..
tsc tsc tsc