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sábado, 29 de março de 2008

Pegando uma cor...

Você já comeu frango com açafrão, prato típico de Goiás? Eu ainda não tinha provado até achar a receita num livro meu de alimentação no Brasil. Num belo dia ensolarado em que eu estava transbordando disposição, resolvi comprar todo o arsenal e partir pra empreitada. Mas se acham que eu segui à risca tudo que estava escrito, estão muito enganados. A graça de uma receita nova é você prestar bem atenção nos ingredientes, no passo-a-passo da preparação, e fazer alguma (ou algumas) alteração que confere à dita um toque bem subjetivo.
Temperei o frango com bastante antecedência (costumo fazer isso na véspera) utilizando azeite, vinagre balsâmico, alho amassado, alecrim e sal. Quando fui ao mercado, acabei comprando cebolinha pra armazenar e usar outro dia, mas ao fatiá-la, tive uma idéia: usar as suas raízes, em geral descartadas, na preparação do ensopado. E foi o que fiz! No momento em que refogava a cebola, o alho e o pimentão vermelho em um pouquinho de azeite quente, acrescentei no fim as raízes e depois o frango pra corar. Em seguida fui adicionando gradualmente pequenas partes de água e o inhame fatiado (quase esqueci da falar dele...) até que toda essa mistura se transformasse num caldo consistente. Pra finalizar, salpiquei o açafrão e misturei bem, no fim do cozimento. O prato foi aprovado pelas duas criaturas que se dispuseram a fazê-lo: eu e minha amiga. As raízes de cebolinha desmanchavam na boca, levemente picantes. O inhame, antes com sua cor típica de coisa nenhuma, adquiriu um dourado sedutor e foi o grande responsável pela cremosidade do ensopado. O frango estava macio, suculento e com o tom levemente amargo e saboroso do açafrão, aliás, como todo o resto. Para acompanhar, fizemos um simples arroz branco. Além de gostoso, o prato ficou lindo! Modéstia à parte...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Moela: ter ou não ter.

Toda vez que alguém fica sabendo que sou nutricionista não resiste a fazer uma perguntinha cretina: quantas vezes você mastiga a comida antes de engolir? Cem vezes? Ahahahah... Geralmente eu me concedo o direito de não responder, mas resolvi abrir uma exceção e esclarecer logo isso de uma vez. Não, não vou dizer o número de dentadas que aplico sobre os alimentos que levo à boca. E sim, falarei das dentadas propriamente ditas.
Aí, sou eu que faço a pergunta: pra que servem os dentes? Pra mastigar! Que mais? Morder, ficar com casca de milho agarrada, fiapo de manga... Pois é, ao contrário das galinhas, nós, seres humanos, não temos moela. Logo, nosso estômago não tritura alimentos, ele só dá umas amassadinhas na papa que você mandou pra dentro e faz a digestão química (com ácido clorídrico, enzimas e cia). Então, se você não usar seus dentes pro seu devido fim_mastigar!_ o estômago, que não tem nada a ver com isso fica cheio de gases, aborrecido e faz você sentir o ácido sabor da vingança (uahahahaha). E tenho dito.

terça-feira, 11 de março de 2008

Nota sobre picância

Em 1912 foi criada a escala de Scoville, pelo farmacêutico Wilbur Scoville, com a nobre missão de comparar as pimentas e classificá-las de acordo com a capacidade de cada uma de queimar nossas papilas gustativas. A tal picância é atribuída à concentração de capsaicina, princípio ativo da pimenta.
A capsaicina pura tem entre 15.000.000 a 16.000.000 de graus Scoville. A Bih Jolokia da Índia, a pimenta mais forte do mundo, fica na faixa entre 850.000 a 1.000.000 Scoville de picância e é tão forte que é considerada venenosa. Quando utilizada na culinária indiana, não é acrescentada à comida. Ao invés disso, os indianos só encostam e tiram a pimenta, já sendo suficiente pra queimar a boca dos mais ousados.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Amigos e Cebolas

O que amigos e cebolas têm em comum? Bem, pra começar gosto dos dois. Lógico que de formas diferentes. Não comeria meus amigos na salada ou faria um refogado com eles. Tão pouco convidaria uma cebola pra ir ao cinema. Digamos que é gostoso estar com os amigos e degustar cebolas. Principalmente se puder fazer os dois ao mesmo tempo...
A cebola é um bulbo complicado e picante. Complicado porque exige comunhão entre as pessoas. Se um comer, o outro tem que comer também, senão o abstênico não agüenta o bafo do acebolado. E picante, bom, o infeliz que tem a incumbência de fatiar sabe bem o que é isso. E não adianta colocar palito na boca, porque pra sobreviver à queimação da substância volátil a base de enxofre que é liberada, só usando óculos de mergulho. Ok, pode-se também molhar a faca ou deixar a cebola numa fria antes de descascá-la. Ajuda...
Mas, voltando à combinação cebola e amigos, no sábado fizemos uma tarde de degustação. Tivemos cebola roxa crua com curry (ardeu até meus pensamentos_ santa capsaicina!); o mesmo tipo de cebola com geléia de laranja (muito bom!) em que a combinação conseguia apaziguar a picância (ou pungência, como preferir) de uma e a docilidade da outra. Foi preparada, ainda, uma cebola frita caramelada perfeita pra comer com pão árabe, uma delícia! Bebidas pra acompanhar, papo e música a gosto...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Quatro chocolícias e a conta!

Parecia um domingo normal. Acordei por volta das 12h, estava na casa da Mari. Passamos as primeiras horas do nosso dia conversando e ouvindo música no Youtube. Bom, a parte em que cantamos “Vapor barato” junto com a Gal eu pulo.
A idéia era almoçar e ir pro Arpoador ver uma apresentação de dança “sei lá do que”. Enfim, a idéia era ir pra praia num lindo dia de sol. Mas antes de sair, resolvi ligar (prometi que ligaria) para a chefa a fim de combinar a assinatura dos contratos do trabalho etc. E qual foi minha grande surpresa? Eu tinha até o final da tarde pra ir até à casa dela na Tijuca fazer isso! Detalhe importante pra história: eu estava em Botafogo e os contratos lá em casa, em Nikiti! Momentos de tensão... Visualizei toda a trajetória da minha odisséia e quis chorar. Aquele dia ensolarado, em segundos, se transformou num inferno onde eu derreteria feito manteiga em frigideira quente. Eu me perguntava: e os meus sonhos? Meus ideais? E o almoço na casa da Paloma (irmã da Mari)? Tudo bem, é importante, tenho que ir_ eu tentando me consolar. Respire fundo, sorria e vá antes que fique tarde_ continuei tentando me consolar.
Sai da casa da Mari por volta das 14h30, andei até a praia de Botafogo e não esperei muito pelo "busu" pra Niterói. Durante o trajeto, não consegui deixar de apreciar a vista ao longo da ponte Rio-Niterói. Que dia lindo... Acorda, Mônica! Você está a trabalho!
Em casa, enfiei dentro da mochila os documentos, um casaco e a metade do pacote de chocolícia que a Mari me deu por dó antes de eu sair da casa dela. Sem almoçar, fui bebendo uma garrafinha de iogurte que achei perdido na geladeira.
O sol de 3 da tarde estava especialmente quente. Senti minha pele tostando como a de um galeto de padaria. Quando terminei minha caminhada de São Domingos até o terminal do centro de Niterói, minha pele já havia produzido óleo suficiente pra fritar um ovo. Pelo menos o ônibus já estava lá, sem ar condicionado, mas estava lá. Não esquecendo que é domingo, tive o desprazer de ver adentrar o ônibus um bando de caras mal-encarados e mal-educados indo para o Maracanã ou algo do tipo. Eles eram barulhentos, mal-cheirosos e estavam fumando maconha. Ainda fiquei no meio das fotos que eles estavam tirando, vaidosos com suas camisas do Botafogo. Mal sabiam eles que perderiam a final de novo pro Flamengo... Nessas horas a ignorância é pura felicidade.
A parte em que desci na Av. Presidente Vargas, peguei o metrô e fui pra Tijuca foi a mais tranqüila da história. Aliás, que lugar quente a Tijuca! Bebi litros d’água na casa da chefa. Aí, normal, conversamos um pouco_ com seu cachorro estranho emitindo um ruído que mais parecia de um leitão e babando os meus pés _, ela assinou os papéis e fui embora. A sobrinha dela me indicou a melhor opção de transporte pra Praça XV e eu segui o conselho. Finalmente iria pra casa, tomaria um banho e almoçaria. Já eram 18h e eu à base de uns 4 chocolícias, uma garrafinha de iogurte e meia caixinha de mentos sabor iogurte de morango. Somado ao fato de eu ter acordado com a garganta inflamada e febril. O mal-estar era dominador e sádico, muito sádico!
Na esquina sugerida, encontrei um senhor pançudo e de bigode que me informou o ponto onde passaria o tal ônibus. Fui pra lá e esperei. Após uns 10 min, o bendito ônibus apareceu e passou direto. Pqp!!! Fiquei sabendo por duas senhoras simpáticas que aquele era o ponto errado. Ai que vontade que deu de esganar o do bigode! Fui pro ponto certo e esperei... Como se não bastasse a gripe, o calor e a fome, uma rajada de vento varreu a rua de repente e toda a poeira da Tijuca colou na minha pele oleosa. Pude sentir uns grãosinhos agarrados entre os meus dentes. E o pior, aquele vento anunciava o que o céu trazia de presente pra mim: nuvens cinza-chumbo avançando furiosamente. E o ônibus que não chegavaaaaaaaa!
Não houve jeito, a tempestade caiu mesmo e tive que me refugiar num posto de gasolina ao lado, com mais meia dúzia de desafortunados como eu. A chuva foi tão forte que em poucos minutos alagou a rua e nos manteve espremidos no cantinho perto do banheiro. Situação lamentável... Vi um raio subir na nossa frente. Assustador! Ele estava tão próximo que pude enxergar a faísca quando ele se dissipou. E os trovões... Morri de medo. Em seguida, transformadores explodiram pela rua em estrondos seqüenciais. Já passava das 19h30 quando a chuva melhorou e faltou luz em todo o bairro.
Recapitulando: ali estava eu, suada à milanesa, cansada, com os pés molhados, com fome, dor de garganta, febre, no meio da rua escura e sozinha na Tijuca! Os ônibus já não passavam mais em intervalos regulares e no escuro, só o que dava pra enxergar eram os faróis brilhantes, mais nada. Como uma criança perdida na praia (ai, a praia!), comecei a chorar e decidi pegar um táxi até a praça Saens Peña . Entrei no metrô, sentei no banco e chorei, chorei, me lixando pra outros a minha volta. Chorar eu podia, ninguém ia me tirar isso! Quando percebi que havia perdido meu brinco preferido, então, chorei muito mais. Buábuábuáááá!
Fiz a rota mais longa e segura: desci na estação do Largo do Machado e sentei pra esperar o 996. Sim, esperar é a palavra perfeita, pois que este maldito ônibus demorou mais de 40min para aparecer. E eu sentada no ponto, pensando na única coisa que desejava mais que tudo: chegar em casa. Um cara bem humorado que também aguardava o 996 puxou assunto. Acabei conversando com ele. Foi bom, me senti menos mulambo. Ele veio com um papo de “eu trabalho como segurança, fico em pé o dia todo e estou aqui na boa”. Nem discuti, não tinha forças. Deixei ele pensar o que quisesse do meu deplorável estado de ânimo. Me restringi a rir de suas histórias e de todo um discurso sobre o conforto que um carro proporciona. Apesar de ser a última coisa que gostaria de ouvir naquele momento.
Obviamente o 996 veio lotado. Sem reclamar, me sentei na escada de saída do ônibus junto com uma garota que ouvia seu mp3. Sentia que, enfim, chegaria em casa. De alguma maneira eu me arrastaria feliz do ponto até meu prédio do outro lado da rua. Mas antes, ainda teria uma provação final. Sim! A minha trajetória rumo ao meu estado deplorável mor não tinha terminado. Na descida da ponte Rio-Niterói, próximo ao pedágio, policiais militares empunhando suas escopetas ou algo do tipo, mandaram parar o ônibus. Denunciaram um assalto ocorrido na ponte e eles estavam parando todos os coletivos. Exigiram que alguns descessem e o restante teve que ficar uns 10 min com as mãos pro alto, como foragidos da justiça, inclusive eu. A minha vontade foi, num ato de loucura, sair gritando: “EU SÓ QUERO CHEGAR EM CASA!!! SERÁ QUE É PEDIR MUITO?!!!”. “AAAAAH!!!”. Mas consegui me controlar e só ri, aquele risinho de quem já perdeu a esperança na vida, nos seus semelhantes e tal. Um riso irônico e insano.
Ao chegar em casa às 22h, finalmente consegui almoçar. Almoço?! Nem sabia mais que nome dar pra isso...