Pesquisar

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mercadão: submundo dos alimentos entorpecentes.

Construído entre 1926 e 1932, o Mercado Municipal de SP foi inaugurado 1 ano depois para corresponder às expectativas da população paulistana de ter um mercado à altura daquela gigantesca cidade. Margeando o rio Tamanduateí, por onde vinham os produtos de chácaras e sítios, o Mercadão virou referência de boas compras na época. Hoje ele destaca-se como pólo de gastronomia, depois de ter sido ameaçado até de demolição (que sacrilégio!).
Uma boa opção pra chegar lá é o metrô. Descendo na estação São Bento, saída da ladeira porto geral, desembocamos no tumulto da Rua 25 de março. A quantidade de gente na rua é tão grande que não parece possível o trânsito de carros por ali. Com uma caminhada de 10 minutos descendo a ladeira, já podemos avistar o Mercado ilhado no meio de uma área abandonada do centro antigo da cidade. Há, inclusive, um prédio residencial, vulgo “Treme-treme“, de 27 andares e 624 apartamentos que foi invadido pela população. Olhando de longe mais parece um presídio vertical, com a fachada toda pichada, vidros quebrados e a pintura descascada. Há informações de que ela está ameaçado de demolição pela prefeitura. Fiquei imaginando como aquele quarteirão deve ser assustador à noite...
Quando nos aproximamos do Mercadão, deu pra ter a noção do tamanho do lugar. Era como se estivéssemos visitando uma catedral ou algo parecido, com seus lindos vitrais decorando o alto da parede anterior, onde predominam os tons lilases, e a cúpula no teto dando ao ambiente um ar quase sagrado. Era como respirar a história da cidade lá dentro.
Ao contrário do que se pode imaginar, o mercado é bem organizado. A divisão em setores nos permite pesquisar melhor produtos e preços, além de guardar os aromas de cada classe de alimento. Para começar, avistamos as bancas de frutas. São mosaicos estonteantes com texturas e cores bem variadas. Paul Cézanne* pintaria todos os seus quadros lá se tivesse conhecido o Brasil... As frutas mais comuns nos chamam logo a atenção por sua familiaridade. Quem não identifica bananas, tangerinas ou maçãs neste nosso país tropical? Mas, passado o encantamento inicial, vamos notando exemplares menos conhecidos ou mesmo exóticos como a Kini da Nova Zelândia e a Lichia chinesa. Elas despertam a curiosidade e estão presentes por toda a área “salada de fruta”. O pêssego e a ameixa tem aromas irresistíveis pra mim. Eu fecho os olhos e entro em transe, como se o mundo inteiro fosse perfumado. Repouso em um Oasis aromático particular e doce. E melhor que cheirar, só a sensação de penetrar a polpa da ameixa com uma dentada suave e precisa pra sentir o sumo azedinho-doce inundando a boca. A primeira palavra que me vem em mente é: suculenta! A salivação já começa antes mesmo da mordida, quando meus olhos avistam os contornos macios dessas adoráveis e coloridas criações da natureza.
Se não bastassem as frutas frescas, encontramos também suas versões cristalizadas ou desidratadas. Abacaxi, figo, cascas de limão siciliano e laranja, manga, abóbora, damasco, a clássica banana... Pequenas montanhas deles à venda, para todos os tipos de paladares. O melhor dessa história é que podemos provar o que quisermos. O freguês só leva se gostar. O difícil é não querer levar tudo...
Progredindo nas compras, encontramos os frutos oliaginosos (amêndoas, nozes, macadâmias, castanhas) em suas formas tradicionais, confeitadas, caramelizadas e tudo mais que se puder imaginar. Essa parte funciona como zona de transição para a descoberta dos azeites, embutidos e queijos. Encontrei tipos interessantes e apetitosos de azeite em prateleiras e pendurados nos tetos das barracas. Parece estar chovendo óleo de oliva! Ou que são frutos que pendem de árvores... Aqueles adicionados de condimento, como alecrim ou limão siciliano eram os mais caros e, provavelmente, os mais saborosos.
Mesmo para quem prefere as frutas e os doces, não há como ignorar o aroma intoxicante das mortadelas, salames e do bacalhau! São oferecidas fatias e pedaços para se provar, além de patês, sanduíches, bolinhos, pastéis feitos na hora! Aliás, paulistano adora um pastel! Impressionante! As azeitonas reinam no setor de conservas, sendo vendidas e degustadas por toda parte. São verdes, roxas, pretas em tons degradé de fazer qualquer apreciador das mesmas desejá-las espetadas com palitinhos, numa mesa de bar, acompanhando uma bebida bem gelada. Há quem eu conheça que passaria o dia à base de azeitona...
Após o almoço no terraço que tem vista pra todo o interior do mercado, nos dirigimos à saída por um caminho diferente. Descobri barracas de pescado fresco próximas às de comida japonesa. É incrível, mas até essa parte do Mercado cheirava bem. Dava vontade de comer os peixes crus mesmo! Mais próximo à porta, percorremos um corredor de condimentos inebriante! Parei para apreciar alguns deles que me pareceram mais frescos: manjericão, orégano, canela, alecrim... Outro transe sensorial antes de ir embora. Estive em alfa por alguns minutos até que alguém me puxou pelo braço como criança distraída num parque de diversões.
No fim das contas, confesso que sucumbi ao submundo dos alimentos entorpecentes. Sem culpa, medo ou arrependimento. Faria tudo de novo. Ou melhor, farei!

*Paul Cézanne: pintor francês pós-impressionista que pintou muitos quadros de natureza morta utilizando frutas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Chama o Fernando!

_ Eu não vou sair daqui! Foi a primeira coisa que eu ouvi ao entrar no banheiro apertado do restaurante.
Estávamos de saída e resolvi, bem... aliviar a tensão da bexiga por precaução. Nunca se sabe. Trânsito, atrasos, filas no banheiro do shopping. Eu só não imaginava que, de uma das cabines do dito recinto, eu avistaria uma cabeça (a moça era alta, ou a porta baixa, sei lá!) ostentando uma cara de aflição misturada com teimosia infantil, dizendo isso. Me assustei, lógico! Mas, em seguida, perguntei se podia ajudar. A moça logo repetiu seu irritante mantra:
_ Eu não vou sair daqui! Não vou! Como essa parte eu já havia entendido_ talvez ela ainda precisasse se convencer_ mudei a pergunta e disse:
_ Quer que eu chame alguém? Funcionou melhor. Ela saiu do transe e respondeu:
_ Chama o Fernando! Chama o meu marido! (assim, meio gritando mesmo) Ele tá me esperando segurando uma bolsa preta (nessa parte, ela já estava mais calma).
Sem pensar duas vezes, sai em busca do Fernando, ou melhor, de um cara que se parecesse com algum herói capaz tirar aquela criatura do banheiro. Não sei porque fiz isso. Poderia muito bem ter chamado o gerente ou algum funcionário do restaurante. Então, poderia ir embora com meus amigos. Mas eu precisava conhecer o Fernando e saber porque aquela mulher adulta, dando piti de criança estava trancada lá choramingando e gritando ao mesmo tempo. Eu queria participar do resgate. Confesso que ainda queria também usar o sanitário, mas isso era um mero detalhe diante da tragédia anunciada.
Eu olhei pra moça com firmeza de decisão e sai procurando o destemido Fernando com a tal da bolsa preta. Vasculhei as mesas da parte de dentro e depois parti pra varanda. De repente, encontro um sujeito daqueles com cara de protético, com uma bolsa preta, de estampa branca na mão. Me aproximei e indaguei:
_ Você é o Fernando? E o cara sem entender nada, respondeu:
_ Soo-u, por que? Eu esclareci, então:
_ A sua mulher está com um problema no banheiro e não quer sair de jeito nenhum. Pediu pra te chamar (fiz cara de quem tá só tentando ajudar uma necessitada, sabe, solidária).
Acompanhei o destemido Fernando até o banheiro, do qual ele se aproximou meio ressabiado. Afinal, era o território feminino e ele sabia que não deveria estar ali.
Sem muita criatividade, a mulher, ao vê-lo, reclamou:
_ Eu não vou sair daqui! E acrescentou:
_ Esse banheiro imundo, apertado!!! Não dava pra sentar. Fui fazer em pé e molhei a bermuda! Eu não vou sair daqui com a bermuda molhada!
Neste momento, eu juro que não ri em consideração ao Fernando. Coitado, vivenciar aquela situação e ainda ser motivo de riso. Era demais pra uma pessoa só.
Eu me contive e achei melhor passar a bola pra ele. Ignorei por alguns segundos a situação e abri a cabine ao lado para meu uso próprio e desisti. A minha vizinha de cabine tinha razão numa coisa: o banheiro estava um nojo. Senti que não me restaram muitas opções. Eu precisava partir.
Felizmente, antes da minha desistência, uma senhora muito firme em seus argumentos conseguiu fazer o que eu fracassaria ao tentar: fazer a moça histérica sair de seu esconderijo sem rir da situação. Enquanto isso, eu permanecia muda. Ou era isso, ou eram gargalhadas inconvenientes, embora justificadas. Seria muita falta de humanidade da minha parte.
O pior foi a reação do Fernando. Tudo bem que ele tá mais pra Paul Giamatti em “Anti-Herói Americano”, com aquela cara de chama-outro-pra-resolver-isso. Mas, por um momento, eu na minha santa ingenuidade, achei que ele saberia o que fazer, pelo menos. Nããããão! Naquele pequeno espaço entre as cabines e a porta e eu e a senhora decidida, estava o casal discutindo inutilmente:
_ Eu não vou sair assim! (gritou a mulher).
_ Quer que eu vá em casa buscar outra roupa? (respondeu Fernando)
_ Não sei! Eu não vou sair assim! (ela em transe psicótico). E o marido moribundo, perguntava:
_ Quer que eu vá em casa buscar outra roupa?
Quando eu vi que o diálogo entre eles se resumiria a isso, esbocei um sorriso amarelo e sai de fininho. Eu já estava a ponto de gritar com os dois:
_ Ou você sai logo e pára com essa frescura (com algum requinte de crueldade pra ela) ou você vai buscar logo a droga da roupa (dando esporro nele)!
No fim das contas, ela só estava com a parte de trás da bermuda (amarela) molhada, na altura da coxa direita. Ninguém ia perceber nada. Ou ela acha que, num restaurante italiano onde estão todos degustando pratos deliciosos, alguém ficaria reparando na bermuda dela... Ah, é muita pretensão!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Como formiga.

Emotivo: aquele motivado pela emoção! Não um radical viciado em adrenalina. Não um deprimido levado por ilusões. Emotivo! Talento de sentir e saber expressar, sem medo de vasculhar o fundo das coisas e virá-las do avesso. Não há lado certo. Há o lado que nos ensinaram a esconder. E aquele cuja face somos incentivados a mostrar. Veja a liberdade implícita nisso! O emotivo vive como formiga carregando os sentidos de um lado pro outro. Sabe aquela folhinha passando, caminhando no chão? Aquela que ninguém dá importância? É a emoção num monte de idas e vindas, ajudando a alimentar um formigueiro inteiro. Porque a vida alimentada continua.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008


Cedo, cedo não é. Mas é cedo.

Rotina de exercícios. Acordo cedo. Tá bom, 7h não é tão cedo quanto 6h ou 5h da manhã _ai que aflição_, mas pra mim é cedo. Já consigo desempenhar funções básicas de relacionamento interpessoal como abrir os olhos, caminhar com um certo equilíbrio e articular frases simples do tipo “Acabou o leite?” ou “Bom dia” _ essa é fácil, já está programada pra ser reproduzida automaticamente. Qualquer pergunta mais complexa faz travar meu sistema de resposta. Imagina uma pessoa, tão cedo, querer saber o que vou fazer à noite! Ainda estou tentando entender o que é essa luz entrando pela minha janela e me cegando. Posso também desempenhar outras funções básicas como deglutir o pão e o café com leite e escovar os dentes. Da mesma maneira, tomar banho se enquadra na categoria atividades-rotineiras-em-que-não-preciso-pensar-pra-fazer.Assim que me livro, em parte, do meu estado de bebum não alcoolizada, saio pra me exercitar. Andar não exige muito raciocínio e concentração. Você simplesmente sai andando. Dia lindo, não há nuvens, não há chuva, nem sombras ou o mínimo de brisa marítima. O verão está chegando, para meu desespero. Calor, suor, sede. Prefiro exercícios ao ar livre. Caminhada na beira da praia ou nadar numa boa piscina. Acho que tenho uma coisa com água... Só de pensar numa academia com todos aqueles pesos assustadores, pessoas suando horrores, espelhos pra todo lado, aquele ambiente opressor onde não se ouve nada, por que a música é alta e lobotomisante demais. Deixa pra lá. Como diz uma amiga minha “É pagar pra sofrer”. A caminhada vai bem. Gente pescando na orla, gente correndo. Uns pra manter a forma, outros pra tentar encontrá-la. Há os que parecem ter prazer se exercitando e os que parecem estar se penitenciando. Cada um sabe o que faz... Eu percorro o trecho programado_ eu não, meu corpo_ sendo levada por pensamentos aleatórios e, por vezes, falhos. Acho que é meu cérebro tentando engatar a primeira... Sou capaz de lembrar de uma música qualquer e cantá-la mentalmente sem parar _ olha o motor esquentando! O problema é quando percebo que estou mexendo os lábios, porque alguém passou e me olha com estranhamento. Bom, devo admitir que não é muito normal ficar falando sozinha pela rua. Então, finjo estar alongando os músculos da face. Na volta, o mundo começa a fazer mais sentido. Próximo das 9h da manhã, minha mente começa a funcionar de verdade. Lembro que aquela claridade na minha janela era o sol, velho conhecido, que costuma sumir no fim de semana, pra desespero geral. Tenho a noção de que esse calor excessivo não é um sonho ruim. Ele veio pra ficar, pelo menos, pelos próximos 4-5 meses. O meu destino vai ser suar e minha pele vai produzir óleo em escala industrial. Isso que dá não ter sido projetada pros trópicos. Acho que seria uma boa esquimó... Clima à parte, o fato de eu não existir como indivíduo pensante antes das 9h da manhã não faz de mim uma preguiçosa. A cronobiologia* indica que sou uma criatura vespertina (eu fiz o teste!). Sou super ativa do período do fim da tarde para a noite. Cada um é do seu jeito! Portanto, lanço aqui uma campanha em defesa do respeito ao ritmo biológico de cada um! Todos nós somos bons em algo diferente. Porque não, num horário diferente?*cronobiologia: ciência que estuda os ritmos e os fenômenos físicos e bioquímicos periódicos que ocorrem nos seres vivos.

Rotina de exercícios. Acordo cedo. Tá bom, 7h não é tão cedo quanto 6h ou 5h da manhã _ai que aflição_, mas pra mim é cedo. Já consigo desempenhar funções básicas de relacionamento interpessoal como abrir os olhos, caminhar com um certo equilíbrio e articular frases simples do tipo “Acabou o leite?” ou “Bom dia” _ essa é fácil, já está programada pra ser reproduzida automaticamente. Qualquer pergunta mais complexa faz travar meu sistema de resposta. Imagina uma pessoa, tão cedo, querer saber o que vou fazer à noite! Ainda estou tentando entender o que é essa luz entrando pela minha janela e me cegando. Posso também desempenhar outras funções básicas como deglutir o pão e o café com leite e escovar os dentes. Da mesma maneira, tomar banho se enquadra na categoria atividades-rotineiras-em-que-não-preciso-pensar-pra-fazer.Assim que me livro, em parte, do meu estado de bebum não alcoolizada, saio pra me exercitar. Andar não exige muito raciocínio e concentração. Você simplesmente sai andando.

Dia lindo, não há nuvens, não há chuva, nem sombras ou o mínimo de brisa marítima. O verão está chegando, para meu desespero. Calor, suor, sede.

Prefiro exercícios ao ar livre. Caminhada na beira da praia ou nadar numa boa piscina. Acho que tenho uma coisa com água... Só de pensar numa academia com todos aqueles pesos assustadores, pessoas suando horrores, espelhos pra todo lado, aquele ambiente opressor onde não se ouve nada, por que a música é alta e lobotomisante demais. Deixa pra lá. Como diz uma amiga minha “É pagar pra sofrer”.

A caminhada vai bem. Gente pescando na orla, gente correndo. Uns pra manter a forma, outros pra tentar encontrá-la. Há os que parecem ter prazer se exercitando e os que parecem estar se penitenciando. Cada um sabe o que faz... Eu percorro o trecho programado_ eu não, meu corpo_ sendo levada por pensamentos aleatórios e, por vezes, falhos. Acho que é meu cérebro tentando engatar a primeira... Sou capaz de lembrar de uma música qualquer e cantá-la mentalmente sem parar _ olha o motor esquentando! O problema é quando percebo que estou mexendo os lábios, porque alguém passou e me olha com estranhamento. Bom, devo admitir que não é muito normal ficar falando sozinha pela rua. Então, finjo estar alongando os músculos da face.

Na volta, o mundo começa a fazer mais sentido. Próximo das 9h da manhã, minha mente começa a funcionar de verdade. Lembro que aquela claridade na minha janela era o sol, velho conhecido, que costuma sumir no fim de semana, pra desespero geral. Tenho a noção de que esse calor excessivo não é um sonho ruim. Ele veio pra ficar, pelo menos, pelos próximos 4-5 meses. O meu destino vai ser suar e minha pele vai produzir óleo em escala industrial. Isso que dá não ter sido projetada pros trópicos. Acho que seria uma boa esquimó...

Clima à parte, o fato de eu não existir como indivíduo pensante antes das 9h da manhã não faz de mim uma preguiçosa. A cronobiologia* indica que sou uma criatura vespertina (eu fiz o teste!). Sou super ativa do período do fim da tarde para a noite. Cada um é do seu jeito! Portanto, lanço aqui uma campanha em defesa do respeito ao ritmo biológico de cada um! Todos nós somos bons em algo diferente. Porque não, num horário diferente?


*cronobiologia: ciência que estuda os ritmos e os fenômenos físicos e bioquímicos periódicos que ocorrem nos seres vivos.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Mestre Miyagi que me desculpe.


Quem me conhece sabe das minhas preferências culinárias. E sabe que eu tenho uma queda Grand Canyon por comida italiana, além do prazer embrionário de degustar a nossa deliciosa comida brasileira. Por outro lado, é bem conhecida também a minha inclinação Torre de Pisa para provar pratos novos. A clássica viagem gastronômica rumo ao desconhecido. Como tudo na vida, esse tipo de tendência pode levar a resultados bons ou desagradáveis...

Noutro dia, resolvi me aventurar no misterioso universo do molho shoyo e do peixe cru. Pasmem, queridos amigos, eu fui a um restaurante japonês!

Fora o fato de termos esperado 1h pra comer numa versão mais econômica e acabado num restaurante caro por uma questão de sobrevivência_ a fome já superava a dor do rombo na conta bancária_ de resto, foi tudo bem. O que a gente não faz pra comemorar o aniversário de um amigo... E choveu muuuuito! O mais estranho foi o temporal ter caído quando chegamos no primeiro restaurante. Como se algo nos dissesse que nosso lugar não era ali.

Já no restaurante mais caro, bem acomodados numa mesa ampla para as 9 pessoas do grupo, agarramos os cardápios com gestos quase desesperados. Eu pedi um suco de laranja pra recuperar minha glicemia e poder degustar o jantar sem parecer uma famita que não tem comida em casa. Eu sei que não é a bebida mais apropriada pra um restaurante japonês, mas, quem disse que eu sou a cliente mais apropriada pra eles?

Logo, os garçons chegaram trazendo pequenas travessas com toalhinhas em rolos ferventes. Esperei pra ver o que os outros fariam, afinal, metade da mesa era apreciadora daquela culinária. Tinha até uma pessoa que sabia japonês! Que chique! Descobri que a tal toalhinha era pra limpar as mãos. Adorei! O tempo estava ficando frio e ela estava tão quentinha... Assim que começamos a fazer os pedidos_ eu pedi a única coisa que conhecia: o tempurá_ os garçons começaram a trazer vasilhames retangulares e irregulares, como se fossem feitos à mão. Eles dispunham dois diante de cada um de nós e eu não fazia idéia do que fazer com eles. Copiando o comportamento dos entendidos, despejei o molho shoyo na travessa menor e utilizei a maior como prato. Logo chegaram os palitinhos_ desculpe-me, os hashis_ e eu me perguntei se conseguiria manusear aquilo sem me sujar toda de shoyo.

Posso dizer que provei praticamente tudo que veio à mesa, numa mistura de curiosidade e fome. Aliás, nada sobrevivia na nossa mesa. Até enfeite de prato_ daqueles com folhinhas verdes e brotinhos_ o pessoal comia. Os garçons nos olhavam com certo espanto. Devem ter pensado: “Bando de mortos de fome”.

Bom, como pontos altos da noite eu destacaria o tempurá, lógico (eu já sabia!); o rolinho Califórnia, que dá pra comer um e achar gostoso; a salada com peixes crus e molho picante; o broto de bambu com alho (me corrijam se me lembrei errado); o yakisoba de carne com legumes e a banana caramelada com sorvete, de sobremesa. O shitake com molho (acho que é ponzu), além de ter uma textura desagradável, é adocicado e enjoativo. Você coloca na boca, dá as primeiras mastigadas e o que não foi mordido, já era. Não tem jeito de mastigar tudo, pois os pedaços inteiros remanescentes escorregam de um lado pro outro da boca e você não pega mais. Aí, ouvi o aniversariante dizer a seguinte pérola: “O que não der pra mastigar, engole inteiro”. Eu mereço... Preferi descartar discretamente no guardanapo. Aquele cogumelo molenga na minha boca já estava me enjoando. Devo confessar que o tradicional sushi não me agradou. O gosto do arroz à moda oriental não combinou com as minhas papilas gustativas. É uma questão de química.

Nada contra os peixes crus, até achei gostosos, mas eu e o molho shoyo (representante mor dos alimentos adocicados) não nascemos uma para o outro. No fim da orgia japonesa alguém pediu tempurá de queijo, tomate e orégano e eu comi pensando: “Quando vamos num rodízio de massas?”.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008


O que você quer ser quando crescer?


Alguns vão dizer que você está ficando velho, pra desafiar seu estado de espírito. Mas você está se sentindo tão leve... O telefone toca o dia todo, as mensagens chegam e cada uma dessas palavras são ingredientes de uma infalível receita de juventude. Você vai receber carinho, abraços e notar que alguns te esqueceram e outros foram esquecidos por você. É hora de reatar amizades ou perdê-las pra sempre. A gente se perde com o tempo... Há os que te querem bem, mesmo em silêncio. Pare para ouvi-los também. Vale à pena. Talvez você ganhe bombons de uma amiga ou um livro do namorado. Não há regras. Sentimentos não vêm embalados pra presente. Nesse dia, a pessoa mais importante pode nem aparecer. Pode nem se lembrar que aquele dia é o dia. E nem por isso ela gosta menos de você. Ela pode ser distraída e comprar o sapato no número errado. Ou, na pressa do dia-a-dia, esquecer que você não fica bem de amarelo. O que eu duvido é que ela deixe de pensar em você um só dia do ano. Quer coisa melhor que isso? Se os implicantes estão errados e você não ficou velho, é provável que você queira da sua mãe aquele bolo delicioso que só ela sabe fazer. Quem sabe você passe a tarde inteira fazendo brigadeiro e enchendo bolas. Senão, podem estar preparando tudo sem você saber. Aposto que no momento da surpresa, até chapéuzinho você vai usar... É irresistível! Mesmo que resolva sair e passar a noite num bar, não vão faltar pessoas a sua volta cantando “aquela musiquinha” e rindo da sua cara vermelha de vergonha. A cada ano, temos um dia especial quando o mundo conspira a favor da nossa alegria. Neste dia, a gente pode ser o que quiser. Ser criança é uma das escolhas mais freqüentes. E mais felizes.


domingo, 14 de setembro de 2008

Bom mesmo é...


Bolo de aniversário;
Ler chupando bala;
Ver filme comendo pipoca;

Andar de roda gigante comendo algodão doce;

Tomar café na varanda à tarde;

Caminhar na praia tomando sorvete;

Comer uva no mercado;

Chupar manga no quintal;

Tomar chocolate quente debaixo da coberta;

Comer churrasco com os amigos;

Feijão que a mãe faz;

Pão de queijo crocante por fora e molinho por dentro;

Bala de menta e água no verão;

Água de coco de frente pro mar;

Brigadeiro de panela com a amiga;

Frango assado com farofa no domingo;

Docinho de festa de criança;

Maçã de amor em noite de São João;

Pão quentinho da padaria;

Fatia de melancia quando tá calor;

Cheiro de refogado;

Carne assada com batata da vovó...


quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Praia no verão.


Praia no verão. Areia branca como açúcar e mar azul-turquesa. O sol fervia no horizonte alaranjado. Havia “bancos de areia” no meio do mar, onde se podia caminhar com a água na altura dos tornozelos. As ondas grandes e espumantes estavam longe.

Foi esse o lugar que eu e três amigos escolhemos para jogar uma espécie de futebol americano com uma bola de vôlei. A disputa era de meninas contra meninos. Nos divertíamos numa confusão feita de água salgada, tombos homéricos e muitas risadas, enquanto o céu escurecia quase às 8h da noite.

De repente, eu pisei em algo rijo que se moveu rapidamente pra se livrar do meu peso: era um siri! Ele se enterrava mais a cada vez que eu tentava pegá-lo. Então, outros foram aparecendo, até nos encontrarmos cercados por eles_ ou eles por nós.

A idéia de um dos meus amigos foi buscar material e voltar para capturar alguns siris. Quando retornamos, já era noite, mas, por sorte, a lua cheia estava tão grande e brilhante que refletia na areia branca, revelando qualquer coisa que se mexesse debaixo da água rasa. Estávamos diante de um lindo espelho ondulado pelo qual caminhamos molhando os pés e desenterrando os siris.

Durante a caminhada pela borda do mar, encontramos uma tartaruga marinha bonita e enorme que se alimentava. Conseguimos nos aproximar e tocá-la, apesar dela ter ficado bastante assustada com a nossa presença. Na faixa de areia próxima ao mar, as cascas de tatuis brilhavam em trilha num azul néon a perder de vista. Eu e um dos meus amigos pegamos os siris com a rede enquanto os outros dois os soltavam numa caixa. Pegamos o suficiente para cada um comer e voltamos para minha casa à 10h da noite.

Meu pai, empolgado com aquela pescaria inusitada, preparou um delicioso ensopado degustado logo em seguida com pão (para aproveitar o caldinho). Já era bem tarde quando nos demos conta do dia incrível que tivemos.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Vinagrete chique

Uma das preparações mais simples e populares que temos atende pelo nome de vinagrete. Afinal, quem nunca preparou_ ou, pelo menos, ajudou a cortar a cebola_ o famoso molho à campanha que funciona como o intermediário perfeito entre a carne e a farofa do churrasco? É bem verdade que esses dois nomes são ditos como sinônimos, mas andei me informando e parece que o molho à campanha é uma variação do vinagrete_ molho de origem francesa à base de mostarda, iogurte ou maionese, adicionado de uma parte de azeite, outra de vinagre e condimentos variados.
Origens à parte, descobri no último fim de semana que a famosa mistura de vinagre, azeite, cebola, pimentão e tomate pode ser ainda mais irresistível e inusitada.
No sábado à noite, num frio que nem cachaça com mel dava jeito, foi quando decidimos experimentar as maravilhas flambadas de um restaurante em Maringá, anunciadas por uma “promoter” na noite anterior. O lugar era meio rústico e aconchegante. A iluminação ficava por conta das várias velas distribuídas pelo ambiente. As toalhas das mesas tinham uma estamparia que fazia lembrar de casa_ acho que a idéia era mesmo essa. Pelas paredes, quadros com personagens de algum artista desconhecido que emprestou sua criatividade também pra moça rechonchuda e desavergonhada posando seminua junto às chamas da logomarca do restaurante “Fogo Carioca”. Havia uma harmonia curiosa no lugar.
Antes de partir para o prato principal, tivemos a melhor idéia da noite: pedir uma entrada. Aberto o vinho, recebemos uma vasilha com vinagrete acompanhado por uma cestinha com torradas cobertas por manteiga e alecrim. Mas não era um vinagrete comum. Era “O” vinagrete! Estava escrito no cardápio: vinagrete de framboesa. Mas é difícil explicar o que foi degustado naquela noite. O equilíbrio entre o adocicado da fruta, a acidez do vinagre e a picância da cebola era tão perfeito que pedimos outro cesto de torradas! Não dava pra parar de comer... Foi impossível controlar minhas caras e bocas de deleite diante daquela descoberta. O prato principal_ o farfale com legumes flambados e truta defumada_ virou coadjuvante. A gente só queria saber do viangrete!
Voltei de viagem e pesquisei a respeito. Encontrei esta receita que acredito se aproximar do que provei no sábado: morangos picados + cebola branca picada + cebola roxa picada + pimentão amarelo picado + salsinha + azeite + vinagre balsâmico de framboesa + sal + açúcar mascavo ou melaço = vinagrete de framboesa delicioso.
Quem se animar a prepará-lo, me convide para a degustação, por favor. Caso eu me aventure a testar a receita qualquer dia desses, retorno ao assunto com todos os detalhes.
Segue abaixo outra receita semelhante (mais completa) que deve ser igualmente maravilhosa.
Estou aqui tentada a sugerir um festival de vinagretes. Quem topa?

Molho vinagrete de morango

Rendimento: 4 porções de 150 g
Tempo de preparo: 10 minutos
Ingredientes
· 10 morangos médios . 125 g
· 1/2 maço médio de cebolinha-verde . 35 g
· 1 cebola média . 115 g
· 3 colheres (sopa) de vinagre de vinho branco . 45 ml
· 1/2 xícara (chá) de vinho branco . 120 ml
· 1 colher (sopa) de pimenta-do-reino verde em conserva . 10 g
· 5 colheres (sopa) de azeite de oliva . 50 g
· Sal a gosto

Modo de Fazer

1. Lave os morangos e a cebolinha em água corrente. Tire os pecíolos dos morangos.
2. Coloque os morangos e a cebolinha em uma tigela com solução de hipoclorito. Siga as especificações do fabricante. Em seguida, escorra a solução e seque com toalha de papel os morangos e a cebolinha-verde.
3. Pique os morangos em pedaços pequenos e a cebolinha-verde finamente. Descasque a cebola, lave-a e pique em pedaços pequenos.
4. Coloque em uma tigela os morangos, a cebolinha-verde, a cebola, o vinagre, o vinho, o sal, a pimenta-do-reino e o azeite de oliva. Misture com cuidado até ficar homogêneo.
5. Sirva com salada e sobrecoxa de frango grelhada.
Valor nutricional por porção
160 calorias; 7 g de carboidratos; 1,5 g de proteínas; 13 g de gorduras totais (1,5 g de saturada, 9,5 g de monoinsaturada e 2 g de poliinsaturada); 0 de colesterol; 2 g de fibras; 4 mg de ferro; e 74 mg de cálcio.

Fonte: http://www.azeite.com.br/content.php?action=rate&recid=2786

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Que gosto tem?

Que gosto amargo tem as dúvidas e todas as incertezas da vida. Parece que impregna a boca, incomoda. É como comer o pedaço errado do peixe. A amargura vem de surpresa, quando não esperamos lidar com os imprevistos. Aliás, eles têm esse nome justamente porque não sabemos quando vão chegar. Visitantes indesejados, mas que, por vezes, nos trazem um novo olhar sobre coisas inertes que não notamos mais. Elas estão ali, preenchem espaço e só. São hábitos inúteis, defasados.
Diria, então, que as decisões são salgadas. Tiram essa umidade melancólica da gente. Você sente sede, quer mais e mais. Isso te move. Você segue até matar a sede, até o conforto da sua boca úmida. Até a letargia de um clima tropical, de um estado constante de água de coco fresca misturada na saliva.
Uma hora a sede passa e fica esquecida num canto qualquer do dia-a-dia. A conquista perde o sabor depressa demais, como goma de mascar: uma só nunca é doce o suficiente. Quer-se mais! É como qualquer vício. Você vai ficando insensível, insatisfeito...

É preciso sentir o trincar dos cantos da língua, os espasmos quase doloridos da acidez das idéias inquietas. Aí, você se pergunta qual é mais incômodo, o amargo da indecisão ou azedo da inquietude. Talvez seja melhor nunca deixá-los perdurarem por muito tempo...

O descaso, esse sim, pode ser mais corrosivo que as incertezas, mais impalatável que as dúvidas. Dilui a nossa humanidade numa vida insípida, que não refresca como água, nem nos adoça. Um desgosto.

A alternância dos sabores, sim, faz da vida uma experiência completa e desconcertante. Um banquete pros nossos sentidos...de existir.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Aventuras no Ártico.

Que fome!
As festas do Caco são maneiras, mas nunca tem "necas" pra comer. Ok, tinha aquele amendoim na mesa da sala, mas tá ali desde a faculdade. Ainda não tinha bebido o suficiente pra encarar uma viagem no tempo_ no tempo em que o amendoim era vivo. Vai que dava uma "siquisira"...
Quando eu cheguei, vi umas azeitonas na cozinha que nosso amigo Ogro fez o favor de engolir com caroço e tudo em 10s. Depois disse com a maior cara de pau que não ia poder ficar, o infeliz. Foi lá só pra acabar com a comida da festa!
Tava aqui pensando se essa dor de cabeça é de fome ou das porcarias que eu bebi. Ou da soma dos dois... Caraca, minha barriga tá mais vazia que o "Maraca" na segunda de manhã! Perai, acho que ouvi alguma coisa! Opa, há vida neste corpo! Tentativa 1 de comunicação "terra para barriga":

_Tem alguém aí? Pode me ouvir?
_ Bruuuuuuuu...
_ Acho que é um "sim".
_ Preciso comer, né?
_ Bruuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...
_ Acho que é um "claro, seu imbecil!".

Vamos ver o que temos aqui... Putz, a minha geladeira parece o Ártico_ gelada e quase inabitada. Sou um desbravador das geleiras explorando esse ambiente inóspito. Hora da caçada! De cara, encontro água em abundância. Mais adiante, encontro um espécime que parece um queijo, mas apresenta uma pelugem típica de um algodão doce. Não sei se é venenoso. Melhor deixar passar. Seguindo, avisto um pedaço de gelo côncavo e estranho que me lembra algo como um prato com pizza. Não me lembro da última vez que pedi pizza. Nem de ter pedido pizza vegetariana. Que troço verde é esse na minha calabresa? Pô, a gente pede a comida, paga caro e não entregam direito... Sacanagem. Ih, tem um treco verde aqui embaixo junto com supostas maçãs, que eu não comi. Isso é coisa da minha mãe " Menino, você precisa comer direito! Tá fraquinho! Vai acabar ficando doente!". Espera aí! As maçãs tão murchas e o (deixa eu ver o que é isso) al-fa-ce a-me-ri-ca-no tá bonzinho. Caraca, deve taí há uma semana, sei lá... Isso não murcha, não? Mó Highlander esse alface! Ai, ganhou moral comigo. Vou comer isso aí que nem o Popeye comia espinafre. Eu tenho a força! Não, acho que quem dizia isso era o He-Man... Sei lá. Mas comer isso puro é brabo. Ah, minha mãe fica falando de azeite, que faz bem pra saúde, blá, blá, blá... Ela deve ter comprado um. Achei! Como é que abre isso, hein? Dã, tampa de rosca, mongol! Aí, ficou bom esse negócio. É crocante. Acho que vou colocar sal... Nossa, se eu não estivesse tão bêbado, podia jurar que isso é batata chips...

sábado, 28 de junho de 2008

De onde viemos? Para onde vamos?


Todos têm uma idéia do destino final dos alimentos que comemos: vira adubo. E a origem? Já pararam pra pensar nisso? Aquela história "de onde viemos e para onde vamos", os alimentos também têm. Eles também cultivam suas filosofias e misticismos...
Poucos param pra pensar o que é a baunilha, por exemplo. Seria um fruto, uma casca, a folha de uma planta exótica, uma flor ordinária que nasce em qualquer lugar... Ou seria um simples composto químico que alguém inventou para dar sabor a sorvetes, bolos etc.
Na verdade, a baunilha é obtida das favas ou frutos de uma orquídea denominada "Vanilla planifolia". O extrato é obtido de forma artesanal, num processo longo, resultando num produto de alta qualidade e caro. O que geralmente comemos_ perdoem-me desapontá-los_ é a forma sintética, mais barata.
Quando descobri isso, fiquei meio deprimida me perguntando se algum dia provei baunilha natural. Creio que sim. Mas prefiro não pensar muito nisso ou acabaria querendo comprá-la _ o que seria um perigo para o meu orçamento doméstico...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Lugar nenhum.

Que lugar estranho é uma rodoviária. De dia ou de noite a estranheza é a mesma. Muitas pessoas, de muitos lugares com diferentes destinos. Uma sopa de destinos destemperada, insípida. Seria isso o que nos torna tão desamparados no meio dessa multidão toda?
Essa idéia me ocorreu quando vasculhava a bombonière da rodoviária no último feriado. Eu só queria comprar uma garrafa d'água, mas fui fisgada pela fascinação quase infantil diante da variedade colorida e apetitosa de guloseimas hipnóticas... Doces de todos os tipos, da mais clássica bananada a confeitos recheados com chocolate. Biscoitos doces, com e sem recheio, balas que pareciam contemplar um arco-íris de cores. Biscoitos salgados de vários sabores e suas embalagens vibrantes e convidativas. Chocolates e bolos caseiros expostos de forma indecente, pra quem quisesse ver e comer. Sucos, refrigerantes, iogurtes... e a água!
Tudo pra nos confortar. Um lugar projetado para compensar a espera, a distância das pessoas queridas e aquela pontinha de solidão que nos belisca quando estamos provisoriamente sem lar. Em lugar nenhum...

domingo, 1 de junho de 2008

Depois das 4h.

Não devia ter tomado café hoje. Ainda mais expresso depois das 4h da tarde. Se ao menos tivesse uma festa pra ir... Acorda! Hoje é segunda-feira! Tenho que acordar cedo amanhã...
Acho que vou tomar um chá de camomila. Não, tá muito quente hoje. Noite abafada em pleno outono... Já sei: suco de maracujá! Onde vou arranjar maracujá às 10:30 da noite? Sem chance d’eu sair pra comprar isso. Melhor tomar um banho e tentar descansar.

2 h depois...

Continuo sem sono. Já assisti TV, li um pouco, conversei com o pessoal no msn e nada. Lógico, todos já foram dormir. Só eu tô aqui olhando pro teto. Quem sabe se eu lavar a louça do jantar e dar uma arrumada na cozinha? Assim eu me canso e consigo dormir.

1 h depois...

Agora to cansada e ainda sem sono, bruuu! Me deu uma fome... Morro de fome quando fico acordada de madrugada. Não dá pra dormir com fome. Vou fazer um lanche. Hum, tem uva na geladeira. Boa idéia! Mas, vai abrir meu apetite... Vou tomar um iogurte também e uns biscoitinhos. Acho que é só.

2h depois...

Ainda acordaaa-da! Vou arrumar o meu quarto, tá uma bagunça: sapatos pelo chão, a mesa com pilhas de papel... Vou ouvir um pouco de música enquanto isso. Ih, são mais de 3h da manhã, não posso fazer barulho. Aaaaaah! Esse silêncio infernal e só eu acordada!!! Eu quero dor-miiiiir!!!

...

_Senhora, já quer fazer seu pedido?

_ Ah, sim. Eu tava aqui distraída...

_ Então, senhora. O que vai ser? Café?

_ Eu vou querer, deixa eu ver..., um suco de laranja e um pão de queijo, por favor.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

TPM

Após 1 ano de treinamento árduo e 2 anos de trabalho escravo nos corredores e subsolo sinistros do CCS, oferecendo cada milímetro da minha alma ao projeto, cheguei a tão temida e aguardada TPM (tensão pré-mestrado_ defesa). No meu caso, este curioso processo se dividiu em três fases: de congelamento, de transição e de descompressão.

Logo após entregar as cópias da dissertação para os avaliadores e preencher toda a papelada necessária, ao invés de me sentir aliviada, eu entrei em pânico. Afinal, agora éramos eu, meus conhecimentos e a banca! Eu não gritei ou coisa semelhante. Eu simplesmente congelei e meus músculos se contraíram em protesto. Eu mal podia me mexer, pois meu corpo doía só de pensar nisso. Eu mal podia falar. Eu sem falar?! A sensação era que eu ia explodir feito panela de pressão sem água. Minha mente em pane só pensava em... comer! É impressionante como nos refugiamos nos prazeres mais básicos quando estamos, digamos, acuados... Nada escapou ao meu apetite angustiado e voraz. Não que eu tenha comido além do que costumo. Não! Mas comia como se fosse a última vez. Como se, após a defesa, eu fosse renascer para uma outra vida onde os sabores deveriam ser diferentes, de preferência melhores. Queria ter uma lembrança vívida pra comparar o antes e o depois. Pesquisar está no sangue!

Fico me perguntando se tudo isso era uma preparação para as fases seguintes...

Para não enlouquecer, resolvi fugir para a serra a fim de iniciar o processo de despressurização com segurança. Logo que cheguei em Friburgo, percebi que havia esquecido qual era a sensação de uma temperatura de 9ºC. Meu rosto enrijeceu em segundos, meus lábios arroxearam e eu notei minhas mãos pálidas saindo das mangas do meu casaco preto. É, estava muito frio pra minha alegria!

Mas antes da transição, cheguei ao auge da fase 1. Eu assustei minha mãe com a primeira pergunta ao adentrar a casa: “Tem vinho”? Meu sangue parecia voltar a circular após uma taça bebida com certa urgência. Mas a melhor surpresa foi no jantar. Há um pequeno restaurante em Lumiar chamado “O Italiano” onde podemos degustar massas caseiras da melhor qualidade. Resolvi me arriscar pedindo uma lasanha à bolonhesa, apesar de não ter boas experiências com lasanha _são sempre gordurosas pelo excesso de queijo. Esta, contrariando a tendência, era perfeita: queeente, textura suave, um molho incrível, resumindo, deliciosa! Com vinho ficou melhor ainda! Degustei o jantar com ansiedade, me lembrando que era minha última lasanha pré-defesa_ depois tenho que voltar lá pra comer de novo e dar prosseguimento às minhas análises. Finalmente, fiquei mais tranqüila e pronta pra encarar o frio. Só não sei dizer se foi porque me livrei das paranóias ou o álcool fazendo efeito.

O fim de semana bucólico passou depressa demais pro meu gosto. Já era segunda-feira e a realidade esmurrava a minha porta: “Você não tem pra onde fugir”!_ dizia ela com um certo prazer. E eu respondia pra mim mesma: “Eu seeei”. Providenciei abstinência total de cafeína_ nada de café, chocolate, guaraná natural, etc_ e acordei por volta de 6h da manhã pra conseguir dormir bem na véspera. Táticas de guerra... Na verdade, fiquei meio sem apetite. Nada tinha muito sabor. Eu não conseguia prestar atenção no que eu comia. Paladar e olfato inoperantes. Todos os sentidos voltados para a visão da inevitabilidade: a defesa. Fiquei anestesiada e eufórica_ dizem que são sintomas da despressurização. Um estado delirante que me convencia de que eu havia nascido para isso.

Ainda não conclui se houve mudanças no meu paladar. Este estresse todo detonou o meu sistema digestivo. Encontro-me em fase de recuperação pós-defesa. Creio que mais estudos precisam ser feitos...


terça-feira, 6 de maio de 2008

A chave

_ Cara, eu tenho umas neuras estranhas...

_ Existe neura normal? Hehe. Me fala, o que é?

_ Quando pego o elevador daqui do prédio... Sabe aquele vão entre a cabine e a porta? Sempre me adianto e pego logo a chave, deixo na mão, sabe? Facilita, tu já chega e abre logo a porta...

_ Sei, mas e daí?

_ Toda vez que vou sair do elevador com a chave na mão, eu imagino ela caindo naquele maldito vão.

_ Ahahahahah! Tu imagina a chave caindo exatamente naquele espacinho impossível e depois sem poder entrar em casa?

_ Isso! Aí, seguro firme a chave e sinto uma alegria estranha e idiota quando chego no corredor. Penso: “Chave sã e salva mais uma vez”. Tipo: missão cumprida.

_ Putz!

_ Bizarrice, né? Coisa de doido.

_ Que nada! Penso a mesma porcaria todas as vezes que venho aqui.

_ Fala sério?!

_ Ahahaha... Deve ser neura hereditária, mana.

_ Ahahahaha... Ih, ouviu o “gruru”? É o chamado, cara! Esquece esse lance de chave. Vamos comer alguma coisa antes que meu estômago comece a conversar contigo...

domingo, 27 de abril de 2008

Conspiração

Agora me lembro! O dia já começou errado e nem reparei. Logo pela manhã, um amigo de Minas e meu irmão, que mora em SP, cancelaram a vinda ao Rio no feriado, ambos alegando só poderem vir no fim do mês. Talvez eles já estivessem em poder do inimigo. Podia ser um pedido de socorro codificado. O que fazer? Se contasse pra alguém, achariam que estava louca...

Sabe quando você anda pela rua e começa a ver pessoas parecidas com pessoas que você conhece? Parecem clones, um exército programado para te seguir e vigiar seus passos. Percebi a estratégia num erro deles. Pela manhã, fui à casa de um amigo e, ao entrar, me deparei com o livro 1808 em cima da bancada da cozinha. Aquele livro cor de papelão com suas 400 e tantas páginas parecia me encarar. Meu amigo não estava rabugento como de costume, parecia inquieto. Nem fez piadas machistas de mau-gosto que me fazem rir. Se ele não abraçou a causa feminista, há algo estranho acontecendo.

Mais tarde, enquanto aguardava a Taty no Café do cinema, vi adentrar o local um rapaz moreno atraente (olhos verdes, visual despojado) com o mesmo livro na mão. "Não acredito! Me seguiram até aqui! Acharam que eu não repararia?"_ pensei. Devia ter um microfone ou uma câmera naquele livro. Ou seria uma espécie de código de identificação entre eles? Não sei, estava ficando nervosa. O rapaz, misteriosamente, permaneceu sentado, próximo à mesa onde eu estava, de costas (pra disfarçar) e saiu uns 10min depois, após olhar o visor do celular. Devem ter percebido que eu sabia de tudo... Devem ter mandado ele se livrar do livro...

Assim que minha amiga chegou, fiquei mais tranqüila. Pedi um capuccino pequeno, um pastel de forno recheado com gorgonzola e maçã (decorado com amêndoas) e um bolinho macio e úmido coberto com um delicioso creme de limão e sementes de papoula. "Nossa, eu comendo queijo com fruta"? Estava ótimo, mas, será que já estavam controlando minha mente?!

Consegui relaxar um pouco assistindo ao filme. Adorei o “2 dias em Paris”. Ri escandalosamente. A cada gargalhada, as pessoas me olhavam. "O que deu em mim"?! Tinha algo naquele café, tenho certeza! Eu estava tonta na saída da sessão. “Não posso apagar. Preciso resistir”. _repetia pra mim mesma. E se minha amiga for cúmplice deles? Marcar pra ir ao cinema pode ter sido uma isca... Será? Ela parecia tão normal...

Me despedi dela e fui cambaleando pela rua. Estava meio escuro, pessoas estranhas passavam por mim... Fui pro apartamento que divido com outra amiga ali perto. Ao abrir a porta, encontrei tudo revirado. Fiquei em pânico! De repente, a campainha tocou. Com uma certa dificuldade, caminhei em direção à porta. Nossa, como minha cabeça doía...

A Mary entrou em casa, me ajudou a sentar e me trouxe um copo d’água. Logo pensei: “Acho que ela acreditaria em mim”. Então, contei tudo e antes que pudesse ouvir sua resposta, vi a sala rodando e minha última lembrança é um sorriso cínico no rosto dela...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Estômago: o filme.

Quando inventei de assistir a esse filme com minhas amigas (nutricionistas) foi na intenção de unir cinema e alimentos numa só noite. E não estou falando de sentar na sala escura pra comer pipoca. E sim, da oportunidade de ver na telona os alimentos em seu momento de arte cinematográfica!

Após a sessão, não pude deixar de lembrar-me de "O banquete de Babeth", em que a protagonista prepara um jantar que faz o expectador salivar... Mas, o filme "Estômago", esse é um banquete do início ao fim!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Meu bel-prazer.

Dentro de um Café (digo o lugar, não a bebida), fica fácil imaginar porque gosto tanto de estar lá. Há um bem charmoso perto da minha casa, no centro de Niterói, ao alcance do meu apetite de saborear aquelas infernais iguarias cafenianas.

Noutro dia descobri (degustando, claro!) que fazem lá um waffle maravilhoso, tão bom quanto o que costumo comer no centro do Rio. Confesso que, a enorme livraria que ornamenta o café do centro do Rio dá um charme a mais pro lugar; por outro lado, o torna barulhento demais também. O Café da minha vizinhança tem a característica essencial de ser silencioso. De lá de dentro pode-se ver pessoas com passos frenéticos cruzando a calçada, carros acelerando e freando, mas o que prevalece é o som ambiente. A música sempre agradável mergulhada nesta tranqüilidade quase inacreditável faz a visão da rua parecer um daqueles filmes mudos antigos. Só que colorido.

Outro contraste que acho irresistível é o duelo entre o moderno e o rústico. A máquina de café expresso metálica, fervendo, serve o café que acompanha um pão de queijo numa cestinha de palha. Os kits individuais, com bandeja, xícara, pires, tudo personalizado, pra servir um bolo de laranja tão delicioso quanto simples. A madeira do balcão confere ao ambiente um tom acolhedor, enquanto o design das cadeiras nos traz de volta à realidade: é, definitivamente, não estou em casa!

A vaidade de maquiagem, mil roupas e tal que não possuo, aplico ao ato de comer. Além do sabor, gosto que o que como seja bonito. Um waffle dourado com manteiga derretendo em cima e geléia de amora, uma torta de chocolate que de tanto chocolate seja quase preta e brilhante; uma mousse de maracujá bem amarela com suas sementes próprias decorando a superfície. Quem nunca prestou atenção na vitrine de um Café, não sabe o que está perdendo. Aquelas belezuras são pequenas, lindas e bem mais baratas que roupas de moda. E ainda pode comer!

O café e seus subprodutos merecem um parágrafo especial. Não sou fã do café expresso tradicional, prefiro versões mais incrementadas. Sei que vai parecer frescura, mas adoro quando fazem desenhos na espuma do capuccino...A mistura de café, canela e chocolate é a perfeição das combinações quando bem efetuada. Eu me derreto toda. Café com leite, com licor de laranja, com limão, com sorvete de creme... Além dos quentes, há também os gelados: o capuccino e o café tipo frozen são os meus preferidos.

Em janeiro deste ano, tive o prazer de conhecer um Café alojado dentro de uma sala de cinema, no CineSESC-SP, na famosa rua Augusta, localizada no centro da cidade. Aquele episódio foi a realização de um sonho de união de duas paixões: o Café e o Cinema. Assistir ao filme da mesinha do Café foi inacreditável e extasiante. Eu poderia morar lá!

Obs: A foto acima é de minha autoria. Eu bebi esse!!! Lindo!

sábado, 29 de março de 2008

Pegando uma cor...

Você já comeu frango com açafrão, prato típico de Goiás? Eu ainda não tinha provado até achar a receita num livro meu de alimentação no Brasil. Num belo dia ensolarado em que eu estava transbordando disposição, resolvi comprar todo o arsenal e partir pra empreitada. Mas se acham que eu segui à risca tudo que estava escrito, estão muito enganados. A graça de uma receita nova é você prestar bem atenção nos ingredientes, no passo-a-passo da preparação, e fazer alguma (ou algumas) alteração que confere à dita um toque bem subjetivo.
Temperei o frango com bastante antecedência (costumo fazer isso na véspera) utilizando azeite, vinagre balsâmico, alho amassado, alecrim e sal. Quando fui ao mercado, acabei comprando cebolinha pra armazenar e usar outro dia, mas ao fatiá-la, tive uma idéia: usar as suas raízes, em geral descartadas, na preparação do ensopado. E foi o que fiz! No momento em que refogava a cebola, o alho e o pimentão vermelho em um pouquinho de azeite quente, acrescentei no fim as raízes e depois o frango pra corar. Em seguida fui adicionando gradualmente pequenas partes de água e o inhame fatiado (quase esqueci da falar dele...) até que toda essa mistura se transformasse num caldo consistente. Pra finalizar, salpiquei o açafrão e misturei bem, no fim do cozimento. O prato foi aprovado pelas duas criaturas que se dispuseram a fazê-lo: eu e minha amiga. As raízes de cebolinha desmanchavam na boca, levemente picantes. O inhame, antes com sua cor típica de coisa nenhuma, adquiriu um dourado sedutor e foi o grande responsável pela cremosidade do ensopado. O frango estava macio, suculento e com o tom levemente amargo e saboroso do açafrão, aliás, como todo o resto. Para acompanhar, fizemos um simples arroz branco. Além de gostoso, o prato ficou lindo! Modéstia à parte...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Moela: ter ou não ter.

Toda vez que alguém fica sabendo que sou nutricionista não resiste a fazer uma perguntinha cretina: quantas vezes você mastiga a comida antes de engolir? Cem vezes? Ahahahah... Geralmente eu me concedo o direito de não responder, mas resolvi abrir uma exceção e esclarecer logo isso de uma vez. Não, não vou dizer o número de dentadas que aplico sobre os alimentos que levo à boca. E sim, falarei das dentadas propriamente ditas.
Aí, sou eu que faço a pergunta: pra que servem os dentes? Pra mastigar! Que mais? Morder, ficar com casca de milho agarrada, fiapo de manga... Pois é, ao contrário das galinhas, nós, seres humanos, não temos moela. Logo, nosso estômago não tritura alimentos, ele só dá umas amassadinhas na papa que você mandou pra dentro e faz a digestão química (com ácido clorídrico, enzimas e cia). Então, se você não usar seus dentes pro seu devido fim_mastigar!_ o estômago, que não tem nada a ver com isso fica cheio de gases, aborrecido e faz você sentir o ácido sabor da vingança (uahahahaha). E tenho dito.

terça-feira, 11 de março de 2008

Nota sobre picância

Em 1912 foi criada a escala de Scoville, pelo farmacêutico Wilbur Scoville, com a nobre missão de comparar as pimentas e classificá-las de acordo com a capacidade de cada uma de queimar nossas papilas gustativas. A tal picância é atribuída à concentração de capsaicina, princípio ativo da pimenta.
A capsaicina pura tem entre 15.000.000 a 16.000.000 de graus Scoville. A Bih Jolokia da Índia, a pimenta mais forte do mundo, fica na faixa entre 850.000 a 1.000.000 Scoville de picância e é tão forte que é considerada venenosa. Quando utilizada na culinária indiana, não é acrescentada à comida. Ao invés disso, os indianos só encostam e tiram a pimenta, já sendo suficiente pra queimar a boca dos mais ousados.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Amigos e Cebolas

O que amigos e cebolas têm em comum? Bem, pra começar gosto dos dois. Lógico que de formas diferentes. Não comeria meus amigos na salada ou faria um refogado com eles. Tão pouco convidaria uma cebola pra ir ao cinema. Digamos que é gostoso estar com os amigos e degustar cebolas. Principalmente se puder fazer os dois ao mesmo tempo...
A cebola é um bulbo complicado e picante. Complicado porque exige comunhão entre as pessoas. Se um comer, o outro tem que comer também, senão o abstênico não agüenta o bafo do acebolado. E picante, bom, o infeliz que tem a incumbência de fatiar sabe bem o que é isso. E não adianta colocar palito na boca, porque pra sobreviver à queimação da substância volátil a base de enxofre que é liberada, só usando óculos de mergulho. Ok, pode-se também molhar a faca ou deixar a cebola numa fria antes de descascá-la. Ajuda...
Mas, voltando à combinação cebola e amigos, no sábado fizemos uma tarde de degustação. Tivemos cebola roxa crua com curry (ardeu até meus pensamentos_ santa capsaicina!); o mesmo tipo de cebola com geléia de laranja (muito bom!) em que a combinação conseguia apaziguar a picância (ou pungência, como preferir) de uma e a docilidade da outra. Foi preparada, ainda, uma cebola frita caramelada perfeita pra comer com pão árabe, uma delícia! Bebidas pra acompanhar, papo e música a gosto...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Quatro chocolícias e a conta!

Parecia um domingo normal. Acordei por volta das 12h, estava na casa da Mari. Passamos as primeiras horas do nosso dia conversando e ouvindo música no Youtube. Bom, a parte em que cantamos “Vapor barato” junto com a Gal eu pulo.
A idéia era almoçar e ir pro Arpoador ver uma apresentação de dança “sei lá do que”. Enfim, a idéia era ir pra praia num lindo dia de sol. Mas antes de sair, resolvi ligar (prometi que ligaria) para a chefa a fim de combinar a assinatura dos contratos do trabalho etc. E qual foi minha grande surpresa? Eu tinha até o final da tarde pra ir até à casa dela na Tijuca fazer isso! Detalhe importante pra história: eu estava em Botafogo e os contratos lá em casa, em Nikiti! Momentos de tensão... Visualizei toda a trajetória da minha odisséia e quis chorar. Aquele dia ensolarado, em segundos, se transformou num inferno onde eu derreteria feito manteiga em frigideira quente. Eu me perguntava: e os meus sonhos? Meus ideais? E o almoço na casa da Paloma (irmã da Mari)? Tudo bem, é importante, tenho que ir_ eu tentando me consolar. Respire fundo, sorria e vá antes que fique tarde_ continuei tentando me consolar.
Sai da casa da Mari por volta das 14h30, andei até a praia de Botafogo e não esperei muito pelo "busu" pra Niterói. Durante o trajeto, não consegui deixar de apreciar a vista ao longo da ponte Rio-Niterói. Que dia lindo... Acorda, Mônica! Você está a trabalho!
Em casa, enfiei dentro da mochila os documentos, um casaco e a metade do pacote de chocolícia que a Mari me deu por dó antes de eu sair da casa dela. Sem almoçar, fui bebendo uma garrafinha de iogurte que achei perdido na geladeira.
O sol de 3 da tarde estava especialmente quente. Senti minha pele tostando como a de um galeto de padaria. Quando terminei minha caminhada de São Domingos até o terminal do centro de Niterói, minha pele já havia produzido óleo suficiente pra fritar um ovo. Pelo menos o ônibus já estava lá, sem ar condicionado, mas estava lá. Não esquecendo que é domingo, tive o desprazer de ver adentrar o ônibus um bando de caras mal-encarados e mal-educados indo para o Maracanã ou algo do tipo. Eles eram barulhentos, mal-cheirosos e estavam fumando maconha. Ainda fiquei no meio das fotos que eles estavam tirando, vaidosos com suas camisas do Botafogo. Mal sabiam eles que perderiam a final de novo pro Flamengo... Nessas horas a ignorância é pura felicidade.
A parte em que desci na Av. Presidente Vargas, peguei o metrô e fui pra Tijuca foi a mais tranqüila da história. Aliás, que lugar quente a Tijuca! Bebi litros d’água na casa da chefa. Aí, normal, conversamos um pouco_ com seu cachorro estranho emitindo um ruído que mais parecia de um leitão e babando os meus pés _, ela assinou os papéis e fui embora. A sobrinha dela me indicou a melhor opção de transporte pra Praça XV e eu segui o conselho. Finalmente iria pra casa, tomaria um banho e almoçaria. Já eram 18h e eu à base de uns 4 chocolícias, uma garrafinha de iogurte e meia caixinha de mentos sabor iogurte de morango. Somado ao fato de eu ter acordado com a garganta inflamada e febril. O mal-estar era dominador e sádico, muito sádico!
Na esquina sugerida, encontrei um senhor pançudo e de bigode que me informou o ponto onde passaria o tal ônibus. Fui pra lá e esperei. Após uns 10 min, o bendito ônibus apareceu e passou direto. Pqp!!! Fiquei sabendo por duas senhoras simpáticas que aquele era o ponto errado. Ai que vontade que deu de esganar o do bigode! Fui pro ponto certo e esperei... Como se não bastasse a gripe, o calor e a fome, uma rajada de vento varreu a rua de repente e toda a poeira da Tijuca colou na minha pele oleosa. Pude sentir uns grãosinhos agarrados entre os meus dentes. E o pior, aquele vento anunciava o que o céu trazia de presente pra mim: nuvens cinza-chumbo avançando furiosamente. E o ônibus que não chegavaaaaaaaa!
Não houve jeito, a tempestade caiu mesmo e tive que me refugiar num posto de gasolina ao lado, com mais meia dúzia de desafortunados como eu. A chuva foi tão forte que em poucos minutos alagou a rua e nos manteve espremidos no cantinho perto do banheiro. Situação lamentável... Vi um raio subir na nossa frente. Assustador! Ele estava tão próximo que pude enxergar a faísca quando ele se dissipou. E os trovões... Morri de medo. Em seguida, transformadores explodiram pela rua em estrondos seqüenciais. Já passava das 19h30 quando a chuva melhorou e faltou luz em todo o bairro.
Recapitulando: ali estava eu, suada à milanesa, cansada, com os pés molhados, com fome, dor de garganta, febre, no meio da rua escura e sozinha na Tijuca! Os ônibus já não passavam mais em intervalos regulares e no escuro, só o que dava pra enxergar eram os faróis brilhantes, mais nada. Como uma criança perdida na praia (ai, a praia!), comecei a chorar e decidi pegar um táxi até a praça Saens Peña . Entrei no metrô, sentei no banco e chorei, chorei, me lixando pra outros a minha volta. Chorar eu podia, ninguém ia me tirar isso! Quando percebi que havia perdido meu brinco preferido, então, chorei muito mais. Buábuábuáááá!
Fiz a rota mais longa e segura: desci na estação do Largo do Machado e sentei pra esperar o 996. Sim, esperar é a palavra perfeita, pois que este maldito ônibus demorou mais de 40min para aparecer. E eu sentada no ponto, pensando na única coisa que desejava mais que tudo: chegar em casa. Um cara bem humorado que também aguardava o 996 puxou assunto. Acabei conversando com ele. Foi bom, me senti menos mulambo. Ele veio com um papo de “eu trabalho como segurança, fico em pé o dia todo e estou aqui na boa”. Nem discuti, não tinha forças. Deixei ele pensar o que quisesse do meu deplorável estado de ânimo. Me restringi a rir de suas histórias e de todo um discurso sobre o conforto que um carro proporciona. Apesar de ser a última coisa que gostaria de ouvir naquele momento.
Obviamente o 996 veio lotado. Sem reclamar, me sentei na escada de saída do ônibus junto com uma garota que ouvia seu mp3. Sentia que, enfim, chegaria em casa. De alguma maneira eu me arrastaria feliz do ponto até meu prédio do outro lado da rua. Mas antes, ainda teria uma provação final. Sim! A minha trajetória rumo ao meu estado deplorável mor não tinha terminado. Na descida da ponte Rio-Niterói, próximo ao pedágio, policiais militares empunhando suas escopetas ou algo do tipo, mandaram parar o ônibus. Denunciaram um assalto ocorrido na ponte e eles estavam parando todos os coletivos. Exigiram que alguns descessem e o restante teve que ficar uns 10 min com as mãos pro alto, como foragidos da justiça, inclusive eu. A minha vontade foi, num ato de loucura, sair gritando: “EU SÓ QUERO CHEGAR EM CASA!!! SERÁ QUE É PEDIR MUITO?!!!”. “AAAAAH!!!”. Mas consegui me controlar e só ri, aquele risinho de quem já perdeu a esperança na vida, nos seus semelhantes e tal. Um riso irônico e insano.
Ao chegar em casa às 22h, finalmente consegui almoçar. Almoço?! Nem sabia mais que nome dar pra isso...